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UNITA já não tem dono: as lideranças passam, a instituição permanece – Correio da Kianda

1. Introdução: Um Congresso que Revela Mais do que Resultados

O XIV Congresso da UNITA, cujos resultados provisórios apresentados na imagem destacam a reeleição de Adalberto Costa Júnior, representa muito mais do que a escolha de um presidente partidário. O acontecimento simboliza a maturidade política de uma organização que, historicamente marcada pelo carisma do fundador Jonas Savimbi, transita hoje para uma fase de maior institucionalização.

Esta evolução insere-se num fenómeno mais amplo, observável nas democracias modernas, onde partidos políticos deixam de estar dependentes de figuras dominantes e passam a afirmar-se como património colectivo.

Max Weber (1994) observa que a evolução das organizações políticas consiste na “rotinização do carisma”, quando o poder deixa de ser sustentado apenas pela figura excepcional do líder e se transforma num sistema fundado em regras e legitimidade institucional.

2. A Herança das Lideranças Históricas: Savimbi e José Eduardo dos Santos

A política angolana foi profundamente influenciada por duas figuras incontornáveis: Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos. Ambos conduziram organizações políticas marcantes, cujas decisões moldaram o percurso do país. Contudo, nenhum deles converteu o partido que liderava em propriedade pessoal ou familiar. Esta realidade distingue Angola de vários países africanos onde a personalização extrema do poder transforma partidos em património privado.

Segundo Panebianco (1988), partidos que conseguem sobreviver ao desaparecimento dos seus fundadores são aqueles que evoluem para estruturas autónomas, funcionando com órgãos permanentes e processos decisórios independentes do carisma original.

3. Da Personalidade ao Colectivo: O Caminho da Institucionalização

A transição de liderança na UNITA, ilustrada pela disputa interna entre figuras de peso, demonstra que o partido está a consolidar um processo de institucionalização política conforme descrito por Huntington (1991). Para este autor, a institucionalização depende da estabilidade, da coerência organizacional, da autonomia e da previsibilidade das regras internas.

O XIV Congresso revela que a disputa interna não constitui fragilidade, mas sim um sinal de vitalidade democrática. A capacidade de gerir diferenças sem ruptura demonstra que o partido já não depende da figura do fundador, mas de mecanismos internos de governação.

Sartori (2005) afirma que os partidos que adoptam formas transparentes de competição interna tendem a ser mais representativos e confiáveis, reforçando a sua credibilidade perante a sociedade.

4. A Analogia com o Mercado de Capitais: Quando a Organização Deixa de Ter Dono

Uma analogia pertinente para compreender este fenómeno é a transformação de empresas familiares em sociedades abertas. Peter Drucker (2008) explica que, quando uma empresa abre o seu capital, deixa de ser propriedade exclusiva de um fundador e passa a ser controlada por accionistas e conselhos de administração, onde a governação se torna mais formalizada e colectiva.

O mesmo fenómeno verifica-se agora no panorama político angolano. Os partidos tradicionais estão a afastar-se da estrutura centrada num líder para se tornarem instituições de pertença colectiva, onde as decisões internas são partilhadas e legitimadas pelos militantes.

Lipset e Rokkan (1967) reforçam que partidos que evoluem para estruturas estáveis tornam-se instituições de referência social, capazes de resistir a mudanças conjunturais e de manter coerência identitária ao longo do tempo.

5. A UNITA como Caso de Estudo: Democracia Interna e Renovação

O processo democrático interno da UNITA, representado na imagem, demonstra um partido capaz de gerir pluralidade, renovar quadros e legitimar lideranças de forma transparente. A reeleição de Adalberto Costa Júnior reflecte não apenas a vitória de um candidato, mas o triunfo da institucionalização sobre o personalismo.

Bobbio (2000) afirma que a democracia vive da alternância e da limitação do poder. A UNITA demonstra compreender este princípio ao organizar processos eleitorais internos que reforçam a participação alargada e a legitimidade dos resultados.

A liderança deixa de ser um legado simbólico de Savimbi e passa a ser uma função atribuída pelos militantes. Isto reforça a organização e aproxima o partido das melhores práticas políticas internacionais.

6. A Nova Realidade dos Partidos Angolanos

Ao observar a realidade política angolana de forma mais abrangente, percebe-se que tanto o MPLA como a UNITA atravessam um processo semelhante de consolidação institucional. Ambos procuram modernizar as suas estruturas, reforçar a participação interna e evitar a patrimonialização partidária.

Este movimento é benéfico para a democracia angolana. A despersonalização dos partidos cria condições para decisões mais colectivas, projectos de longo prazo e estabilidade política.

O legado de Savimbi e de José Eduardo dos Santos permanece, mas não como propriedade familiar. Permanece como referência histórica para entidades políticas que procuram modernizar-se sem se submeterem ao personalismo.

7. Conclusão: Uma Nova Era de Governação Partidária

O XIV Congresso da UNITA representa uma etapa decisiva para o reforço da democracia interna e da maturidade política em Angola. A organização demonstra capacidade de renovação, institucionalização e fortalecimento dos seus mecanismos internos.

Assim como as empresas que se abrem ao mercado deixam de ser património exclusivo de uma família, também os partidos angolanos evoluem para estruturas colectivas sustentadas em normas, legitimidade interna e participação dos seus membros.

Angola avança para um modelo político mais moderno, estável e participativo. Como refere Bobbio (2000), a essência da democracia consiste no poder que deixa de ser uma posse e passa a ser um serviço público exercido em nome de todos.

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