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O navio zong nunca afundou: apenas mudou de nome – Correio da Kianda

Há datas que cabem no calendário e há datas que cabem na consciência. 1781 não pede comemoração nem rodapé de manual. Pede silêncio, escuta e responsabilidade histórica.

O navio Zong não transportava apenas africanos sequestrados. Transportava uma ideia que ainda hoje insiste em sobreviver: a de que a vida humana pode ser reduzida a número, custo, estatística ou cláusula contratual. No convés daquele navio, não se tomou uma decisão de emergência. Tomou-se uma decisão política, económica e moral. Escolheu-se matar porque era mais barato. Escolheu-se o lucro em detrimento da dignidade. Escolheu-se o cálculo em vez da consciência.

Os governos de hoje não lançam corpos ao mar. Mas, por vezes, lançam povos inteiros à fome, ao desemprego estrutural, à exclusão social, à violência silenciosa das políticas públicas mal pensadas ou deliberadamente injustas. Mudaram-se os instrumentos, sofisticaram-se as linguagens, mas a lógica pode ser a mesma: sacrificar vidas em nome de equilíbrios financeiros, interesses geopolíticos ou conveniências eleitorais.

O Zong ensina que o maior perigo não é a crueldade explícita, mas a crueldade normalizada. Quando matar deixa de chocar porque está “dentro da lei”. Quando excluir deixa de incomodar porque está “dentro do orçamento”. Quando ignorar deixa de ser pecado porque está “dentro do sistema”.

A história mostra que os colonos não erraram apenas por ignorância. Erraram porque construíram Estados e impérios sobre a desumanização de outros povos. Erraram porque confundiram poder com direito. Erraram porque acreditaram que alguns nascem para mandar e outros para ser descartados. Sempre que um governo adopta políticas que hierarquizam vidas, revive, ainda que sem navios negreiros, o mesmo espírito do Zong.

Governar não é gerir perdas humanas. Governar é proteger vidas, sobretudo as mais frágeis. Um Estado que aceita a morte evitável, a miséria previsível ou a exclusão estrutural como “danos colaterais” já começou a navegar em águas perigosas. Pode não ouvir gritos no convés, mas ouvirá, mais cedo ou mais tarde, o colapso social bater à porta.

O Atlântico tornou-se cemitério porque faltou humanidade aos que tinham poder de decisão. O mundo contemporâneo corre o risco de se tornar um cemitério social quando os governos perdem a capacidade de se indignar. A indiferença institucional mata mais devagar, mas mata de forma mais profunda.

Que os actuais governantes aprendam com 1781. Que compreendam que nenhuma política é neutra. Que toda decisão pública escolhe quem vive melhor e quem vive pior. E que a verdadeira grandeza de um governo não se mede pelo crescimento económico isolado, mas pela forma como trata os seus cidadãos quando estes deixam de ser “úteis” ao sistema.

O Zong continua a navegar sempre que a vida humana é secundarizada.
Cabe aos governos de hoje decidir se serão capitães da dignidade ou herdeiros do naufrágio moral da história.

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