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Se a OMA muda, o MPLA sente – Correio da Kianda

1. 2026 como ano político charneira para o MPLA

O ano de 2026 configura-se como um dos mais decisivos do ciclo político recente do MPLA. Dois acontecimentos estruturantes concorrem para esse estatuto: a eleição da nova Secretária Nacional da Organização da Mulher Angolana (OMA) e a realização do Congresso do partido. Longe de serem meros actos estatutários, estes momentos colocam o MPLA no centro do panorama político nacional e criam condições objectivas para uma reaproximação estratégica com a sua base mais confortável e numerosa: os militantes, com especial destaque para as mulheres.

Como sublinha Maurice Duverger, os partidos políticos que sobrevivem no tempo não são apenas os que controlam as suas estruturas, mas sobretudo os que conseguem adaptar-se às transformações sociais, renovar as suas lideranças e revitalizar os seus mecanismos de participação interna. Em 2026, a OMA surge como um dos principais espaços onde essa renovação pode ganhar corpo político e simbólico.

2. A OMA: história, autonomia e centralidade política

Criada em 1962, num contexto de luta política e de afirmação nacional, a OMA nasceu com o objectivo de mobilizar, organizar e educar politicamente as mulheres em torno do projecto do MPLA. Ao longo de mais de seis décadas, consolidou-se como o principal espaço de activismo feminino em Angola, funcionando como escola de formação política, via de ascensão interna e plataforma de projecção pública de lideranças femininas.

Embora integrada na arquitectura partidária, a OMA goza de autonomia organizativa, administrativa e financeira, rege-se por estatutos próprios e possui identidade institucional própria. Essa autonomia confere à sua liderança um peso político significativo e torna a questão da legitimidade interna um elemento central da sua eficácia e credibilidade.

A história da organização demonstra que os seus períodos mais marcantes coincidiram com fases de forte mobilização e participação. Na década de 1980, sob a liderança de Ruth Neto, a OMA expandiu significativamente os programas de alfabetização e educação feminina, deixando uma marca estrutural no tecido social angolano. Mais tarde, a longa liderança de Luzia Inglês Van-Dúnem, conhecida como Inga, durante cerca de vinte e dois anos, conferiu estabilidade e identidade à organização, mas também consolidou um modelo fortemente personalizado de direcção.

3. Da sucessão consensual ao desafio da pluralidade

Foi neste contexto que Joana Tomás assumiu a liderança da OMA em Março de 2021, eleita com expressivos 94,5% dos votos, num ambiente de consenso praticamente fechado, como candidata única. Max Weber recorda que a legitimidade pode ser legal, tradicional ou carismática; contudo, só se consolida plenamente quando é reconhecida socialmente e testada politicamente.

O VIII Congresso da OMA, marcado para Fevereiro de 2026, surge, por isso, num momento politicamente sensível e potencialmente histórico. Ao contrário do que ocorreu em 2021, o cenário actual aponta para múltiplas candidaturas e para uma disputa interna aberta. Emília Carlota já formalizou publicamente a sua candidatura de igual modo, Lourdes Caposso e a jovem Graciete Sungua já avançaram às suas candidaturas dentro do prazo legal, que termina a 15 de Janeiro.

Este dado altera profundamente a natureza do processo. Num sistema habituado a sucessões discretamente negociadas, assumir publicamente uma candidatura constitui, por si só, um acto político relevante. Robert Dahl defende que a democracia interna se mede pela existência de escolha real e competição efectiva. Neste sentido, a pluralidade de candidaturas representa um teste claro à maturidade institucional da OMA e, por extensão, do próprio MPLA.

4. O silêncio da liderança e o peso do simbolismo político

Neste contexto, o silêncio de Joana Tomás quanto a uma eventual recandidatura assume particular significado político. Não apenas pelo peso institucional que carrega, mas também porque, sendo jornalista, conhece melhor do que muitos o valor simbólico e pedagógico do confronto democrático dentro das organizações políticas. Uma eventual recandidatura, enfrentando adversárias internas, seria, por si só, um sinal claro de maturidade política e institucional; liderança não se afirma apenas na ausência de concorrência, mas na capacidade de vencer no debate e na escolha.

5. A maioria feminina e o desafio da mobilização política

A centralidade da OMA torna-se ainda mais evidente quando se analisam os dados demográficos. Segundo o último Recenseamento Geral da População e Habitação, realizado pelo Instituto Nacional de Estatística, as mulheres representam cerca de 52% da população angolana, constituindo maioria clara no tecido social, económico e eleitoral do país. Esta maioria numérica, no entanto, ainda não se traduziu plenamente em maioria de influência política organizada.

Pippa Norris alerta que os partidos que não conseguem transformar a maioria social das mulheres em força política efectiva acabam por perder capacidade de mobilização e relevância no médio e longo prazo. É precisamente aqui que a escolha da liderança da OMA assume carácter estratégico.

6. Legitimidade institucional: aquela que melhor congrega

Neste quadro, impõe-se resgatar a componente da legitimidade institucional agregadora; aquela que melhor congrega. A OMA não precisa apenas de uma líder vencedora de um processo interno. Precisa de uma liderança capaz de unir após a disputa, integrar diferentes sensibilidades e transformar diversidade em coesão.

Max Weber lembra que a autoridade legítima é aquela que é reconhecida como tal pelos liderados. Para a OMA, isso implica uma figura percebida como representante da mulher angolana real, e não apenas de segmentos específicos ou de equilíbrios internos.

7. O perfil da candidata que a OMA precisa

A candidata ideal para a liderança da OMA em 2026 deve reunir um conjunto claro de características políticas, sociais e simbólicas, a saber:
experiência política comprovada, aliada à capacidade de diálogo intergeracional;
autoridade institucional sem distanciamento da base;
capacidade de escuta, negociação e decisão firme;
visão estratégica alinhada com os desafios do MPLA e com as preocupações concretas das mulheres.

A OMA é composta por mulheres de diferentes idades, percursos e formações. A candidata deve saber dialogar com a militante histórica, formada nos ideais da luta e da disciplina partidária, sem perder ligação com a jovem urbana, escolarizada, crítica e conectada às novas linguagens políticas e digitais.

8. A mulher angolana mediana como referência política

Compreender a mulher angolana mediana é central para este perfil. Essa mulher não é homogénea. É camponesa no interior, zungueira nos centros urbanos, funcionária pública, empresária informal, professora, estudante ou técnica superior. Vive entre o peso da economia familiar, a informalidade, a fé, a tradição, a modernidade e a pressão social.

Politicamente, é pragmática; socialmente, resiliente; economicamente, criativa; culturalmente, diversa. Amartya Sen defende que o verdadeiro desenvolvimento, incluindo o político, só existe quando amplia as capacidades reais das pessoas para participarem, escolherem e influenciarem decisões que afectam as suas vidas. A liderança da OMA deve ser capaz de traduzir essas realidades quotidianas numa agenda política mobilizadora e credível.

9. A figura de consenso: mais do que ausência de conflito

Uma figura de consenso, neste contexto, não é a mulher sem oposição, mas aquela que atravessa o debate, enfrenta a disputa e emerge com autoridade moral para liderar. Hannah Arendt lembrava que a política nasce do encontro entre diferentes. Liderar a OMA hoje significa criar pontes onde antes havia silêncios e sínteses onde existe diversidade.

10. Conclusão: a OMA como barómetro da vitalidade do MPLA

Para o MPLA, 2026 representa mais do que um ano de congressos. Representa uma oportunidade estratégica para aprofundar a divulgação, incentivar a participação a todos os níveis e reencontrar-se com a sua base confortável de militantes. Controlar processos pode garantir estabilidade momentânea; promover participação garante legitimidade e sustentabilidade política.

A OMA, neste percurso, não é um actor secundário. É um verdadeiro barómetro da vitalidade democrática do partido. A candidata certa, com o perfil certo, poderá transformar este momento histórico numa plataforma de renovação política, reforço da legitimidade institucional e reconexão profunda com a maioria feminina angolana, que continua a ser, em número e em resistência, um dos pilares centrais da sociedade.

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