Top Header Ad

Onde a competência é esquecida, a história cobra – Correio da Kianda

Talvez seja tempo de repensar a forma como tratamos quem trabalha com seriedade e determinação.

Ao olhar para esta fotografia, a memória puxa-me para trás como quem abre um velho álbum de família. Lembrei-me daquele técnico francês que passou pelos Palancas Negras, em 2010, quase sem deixar marcas visíveis no imediato, mas que o tempo se encarregou de transformar numa lenda do futebol Africano, Hervé Renard.

Depois de Angola, Renard não voltou atrás. Cresceu. Venceu. Em 2012, conduziu a Zâmbia a um título histórico da Copa Africana de Nações, ironicamente conquistado em solo gabonês, onde anos antes um acidente aéreo dizimara a selecção zambiana.

Três anos depois, em 2015, voltou a erguer a CAN, desta vez com a Costa do Marfim, tornando-se o único treinador a conquistar a competição por duas selecções diferentes. O seu percurso levou-o ainda ao Mundial de 2018 com Marrocos e, mais tarde, à Arábia Saudita, onde surpreendeu o planeta ao vencer a Argentina de Messi no Mundial de 2022, num dos maiores abalos da história dos Campeonatos do Mundo.

Tudo isso depois de Angola.

A lembrança de Renard traz, inevitavelmente, Pedro Gonçalves para o centro da reflexão. Também ele passou por nós. Chegou com método, visão e paciência pedagógica. Trabalhou com escassez, formou jogadores, organizou a selecção, devolveu competitividade e esperança. Ainda assim, foi afastado na véspera do CAN, num gesto que a história dificilmente absolverá. O resultado foi uma participação desastrosa, daquelas que não se explicam apenas com futebol.
Pedro seguiu o seu caminho. Como tantos outros. E venceu.

Na Tanzânia, longe da instabilidade e do improviso, encontrou confiança, tempo e respeito pelo projecto. O Young Africans acreditou. O trabalho foi protegido. O desfecho chegou com a conquista da Mapinduzi Cup, frente ao rival Azam, numa final decidida nos penáltis. O primeiro título da carreira de Pedro Gonçalves no futebol de clubes africano. Um marco. Um sinal claro.

Hoje, Depú chega à Tanzânia e reencontra o seu antigo seleccionador. Imagino a conversa. Talvez recordem Angola. Talvez falem de caminhos interrompidos. Talvez riam. Talvez se calem. Porque há silêncios que dizem mais do que discursos. O jogador reencontra o treinador. O passado cruza-se com o presente. E o futuro observa.
E a pergunta, incómoda, regressa com mais força:

o que se passa com a terra que nos viu nascer?

Por que razão técnicos e jogadores precisam sair para provar valor? Por que celebramos vitórias alheias que poderiam ser nossas? Será falta de paciência? Excesso de vaidade? Incapacidade de sustentar projectos? Ou medo de permitir que o tempo faça o seu trabalho?

Renard venceu depois de Angola. Pedro Gonçalves venceu depois de Angola. Outros venceram longe. Angola, muitas vezes, ficou apenas com o arrependimento e com a frase gasta do “não era o momento”.

Talvez seja tempo de repensar. Não apenas o futebol, mas a forma como tratamos quem trabalha com seriedade. Porque, no fim, a história é implacável,
os vencedores encontram sempre um lugar onde possam vencer,  mesmo que não seja em casa. Saudações desportivas.

Crédito: Link de origem

Leave A Reply

Your email address will not be published.