Em Angola, a verdade não é proibida. Seria exagero. Ela apenas precisa de autorização superior, carimbo oficial, parecer técnico, despacho hierárquico e, se possível, um silêncio cúmplice no final.
Aqui, a mentira não só circula livremente como anda de fato e gravata, tem gabinete, orçamento e assessoria de imprensa. A falsidade é organizada, disciplinada e pontual. Chega sempre antes da realidade e sai sempre ilesa. Já a verdade, bem, a verdade costuma chegar atrasada, sem convite, e ainda faz perguntas inconvenientes.
O problema nunca foi errar. Em Angola, errar é humano, desde que seja em grupo e alinhado. O problema é acertar sozinho. A lucidez individual é vista como acto de rebeldia, quase terrorismo intelectual. Quem pensa demais começa logo a ser acusado de “não compreender o contexto”, essa entidade mística que serve para justificar tudo e explicar nada.
O cidadão que mente para proteger o sistema é chamado de responsável, patriota e maduro. Já o cidadão que fala a verdade é rotulado de negativo, desestabilizador, inimigo da paz e, crime máximo, “não construtivo”. Porque, convenhamos, em Angola a construção nacional faz-se melhor com silêncio do que com perguntas.
A censura, claro, não se chama censura. Isso seria muito feio. Chama-se “regulação”, “orientação”, “harmonização do discurso” ou, em versões mais modernas, “combate à desinformação”, curiosamente sempre aplicada contra quem informa demais. Afinal, informação em excesso provoca lucidez, e lucidez provoca desconforto.
Como em 1984, não se combate a mentira. Gere-se. Organiza-se. Arquiva-se. A verdade não é negada, é adiada até perder validade. Quando finalmente aparece, já vem cansada, desactualizada e, de preferência, desacreditada.
Nietzsche teria dificuldade em Angola. Não por falta de matéria-prima, mas porque aqui não se odeia uma ideia por ser falsa. Odeia-se por ser ameaçadora. A ideia perigosa não é a que mente, é a que acorda. Não é a que confunde, é a que esclarece. O maior pecado não é enganar o povo, é lembrar-lhe que pensa.
No fundo, o poder não teme o erro. O erro é útil, maleável e reciclável. O poder teme a consciência. Porque um cidadão consciente começa a comparar, a questionar e a exigir. E exigir dá muito trabalho.
Por isso, em Angola, a verdade não morre. Ela apenas aprende a falar baixo, a escrever em metáforas e a sorrir ironicamente. Porque quem diz tudo em voz alta corre o risco de ser acusado de querer mudar demais, num país onde o maior perigo continua a ser mudar de verdade.
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