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O país pode crescer 3,5%, mas o cidadão vai sentir? – Correio da Kianda

1. Introdução: quando a projecção económica é também um acto político

As projecções macroeconómicas nunca são neutras. Como sublinha John Maynard Keynes, “as expectativas sobre o futuro influenciam decisivamente as decisões do presente”. Quando o Banco Nacional de Angola (BNA) admite, para 2026, um cenário de crescimento do PIB em 3,5 % e uma taxa de inflação de 13,5 %, não está apenas a divulgar números técnicos, mas a ancorar expectativas, influenciar comportamentos económicos e testar a credibilidade das instituições.

Num país como Angola, onde a inflação elevada corrói rendimentos e o crescimento económico nem sempre se traduz em bem-estar social, estas projecções assumem um peso político e social significativo. Como lembra Joseph Stiglitz, “a economia não pode ser dissociada das instituições que a governam”.

2. O ponto de partida: a herança macroeconómica de 2025

O ano de 2025 deixou uma economia angolana marcada por avanços limitados e fragilidades persistentes. O crescimento económico situou-se entre 1,9 % e 3,6 %, dependendo da fonte, enquanto a inflação, embora em trajectória descendente, manteve-se elevada, próxima dos 17 % a 18 %. Este cenário confirma a observação clássica de Paul Samuelson, segundo a qual “as economias emergentes crescem frequentemente aos solavancos, condicionadas por choques externos e fragilidades internas”.

A dependência do petróleo, a baixa produtividade, a informalidade elevada e a forte exposição às importações continuam a moldar o desempenho económico de Angola. Assim, qualquer projecção optimista para 2026 deve ser lida à luz desta herança estrutural.

3. Política monetária: a credibilidade do BNA como âncora da estabilidade

O controlo da inflação como função central do banco central

Para que a inflação desça para 13,5 %, o BNA teria de manter uma política monetária firme e coerente. Milton Friedman foi categórico ao afirmar que “a inflação é sempre e em toda a parte um fenómeno monetário”, sublinhando a importância do controlo da liquidez. Embora esta visão seja hoje complementada por abordagens estruturais, ela continua relevante no contexto angolano.

Isso implica taxas de juro reais positivas, controlo rigoroso da base monetária e rejeição do financiamento monetário do défice. Como defende Ben Bernanke, antigo presidente da Reserva Federal, “a credibilidade do banco central é tão importante quanto os instrumentos de que dispõe”.

Expectativas inflacionárias e confiança institucional

Num país com histórico de inflação elevada, as expectativas desempenham um papel central. Robert Lucas, prémio Nobel, demonstrou que os agentes económicos ajustam o seu comportamento com base nas políticas antecipadas. Assim, sem confiança no BNA, a inflação torna-se autoalimentada, independentemente das medidas adoptadas.

4. O câmbio como principal canal de transmissão da inflação

Dependência externa e inflação importada: A economia angolana é altamente sensível ao câmbio. Dornbusch e Fischer explicam que, em economias abertas e dependentes de importações, “as variações cambiais transmitem-se rapidamente aos preços internos”. Em Angola, este mecanismo é evidente, sobretudo nos preços dos alimentos e bens essenciais.

Para alcançar uma inflação de 13,5 %, seria indispensável uma estabilidade cambial sustentada, baseada em reservas internacionais adequadas e equilíbrio das contas externas.

Estabilidade cambial não é artificialismo económico: Como alerta Barry Eichengreen, a fixação artificial do câmbio sem fundamentos reais “acaba quase sempre em crises abruptas”. Logo, a estabilidade do kwanza teria de resultar de fundamentos macroeconómicos sólidos, e não de intervenções administrativas de curto prazo.

5. Crescimento do PIB a 3,5 %: o desafio da diversificação económica

O declínio estrutural do petróleo: A literatura económica é clara quanto aos riscos da dependência de recursos naturais. Jeffrey Sachs e Andrew Warner demonstraram que países excessivamente dependentes de recursos tendem a crescer menos no longo prazo. Angola encaixa, em grande medida, nesta análise.

Com a produção petrolífera em declínio estrutural, um crescimento de 3,5 % só seria possível com a expansão efectiva do sector não petrolífero.

6. Agricultura, indústria e serviços como motores sustentáveis

Arthur Lewis, ao analisar economias em desenvolvimento, destacou a importância da transição para sectores produtivos diversificados. No caso angolano, isso passa pela agricultura orientada para o mercado interno, pela indústria transformadora e por serviços como transportes, logística e turismo, capazes de gerar emprego e valor acrescentado.

Sem esta transformação estrutural, o crescimento permanecerá frágil e volátil.

7. Política fiscal: coordenação ou contradição?

Disciplina fiscal como condição da estabilidade: Richard Musgrave, referência em finanças públicas, defendia que a política fiscal deve promover estabilidade, eficiência e equidade. Para que o BNA sustente projecções optimistas, o Estado angolano teria de reduzir o défice, melhorar a qualidade da despesa pública e evitar pressões sobre a política monetária.

Receitas não petrolíferas e sustentabilidade do Estado: A dependência fiscal do petróleo limita a autonomia da política económica. Como sublinha Vito Tanzi, sistemas fiscais frágeis comprometem a capacidade do Estado em promover desenvolvimento sustentável. O alargamento da base tributária e a formalização da economia são, por isso, essenciais.

8. Investimento privado e confiança: o papel das instituições

Instituições importam: Douglass North, prémio Nobel, afirmou que “as instituições são as regras do jogo numa sociedade”. Crescimento económico sustentado exige segurança jurídica, previsibilidade regulatória e redução da burocracia. Sem estas condições, o investimento privado não floresce, independentemente das projecções oficiais.

Sistema financeiro e crédito à economia real

Como lembra Hyman Minsky, sistemas financeiros excessivamente conservadores podem sufocar o investimento produtivo. Em Angola, bancos sólidos e orientados para financiar a economia real são indispensáveis para transformar crescimento potencial em crescimento efectivo.

Factores externos: limites da soberania económica

Nenhuma projecção ignora o contexto internacional. Joseph Stiglitz recorda que economias em desenvolvimento são particularmente vulneráveis a choques externos. Preços do petróleo, taxas de juro internacionais e tensões geopolíticas continuam a influenciar directamente o desempenho económico angolano.

9. Conclusão: entre a projecção técnica e a realidade social

Um cenário de crescimento do PIB em 3,5 % e inflação de 13,5 % em 2026 é teoricamente possível, mas altamente exigente. Como alertava Keynes, “no longo prazo estaremos todos mortos”, mas no curto e médio prazo, políticas mal calibradas têm custos sociais reais.

Sem reformas estruturais profundas, coordenação institucional e credibilidade política, estas projecções arriscam ser vistas como optimismo estatístico, distante da vida concreta dos cidadãos. O verdadeiro desafio de Angola não é apenas crescer mais, mas crescer com estabilidade, inclusão e confiança institucional, transformando números macroeconómicos em progresso social tangível.

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