A recente narrativa de Sarah Wynn‑Williams sobre a sua passagem pelo Facebook – onde idealismo e promessa de mudança mundial se colidiram com um ambiente corporativo dominado por ambição, misoginia e hipocrisia – não é apenas um relato pessoal. É um espelho das tensões geopolíticas fundamentais que caracterizam a era digital, evidenciando como decisões tecnológicas podem desencadear impactos políticos, sociais e humanitários em várias realidades geográficas (Castells, 2010; Ribeiro & Silva, 2022).
1. Redes Sociais como Actores Geopolíticos
As redes sociais deixaram de ser meras plataformas de interacção social para se tornarem actores estratégicos na geopolítica global. No cenário contemporâneo, a luta pelo controlo da informação, dados e narrativas é central à disputa pelo poder entre Estados e corporações, num contexto descrito como “capitalismo de vigilância”, em que a recolha massiva de dados pessoais é utilizada para fins económicos, políticos e sociais (Zuboff, 2019).
A acumulação de dados por grandes plataformas não é apenas uma questão económica, mas também política e simbólica. Ribeiro e Silva (2022) afirmam que as redes sociais operam num “espaço de vigilância sociotécnica” que transcende fronteiras e desafia a soberania dos indivíduos e Estados.
2. Manipulação de Opinião, Polarização e Desinformação
Os efeitos das redes sociais na política são profundos. Estudos recentes indicam que a disseminação de fake news, a formação de bolhas informacionais e a manipulação algorítmica da opinião pública intensificam a polarização política e corroem a confiança nas instituições democráticas (Lazer et al., 2018). As redes sociais amplificam conteúdos emocionais, criando ambientes propícios à divisão e à desinformação, influenciando decisões eleitorais e percepções sociais.
Investigações sobre operações de informação ligadas a Estados demonstram que plataformas como Meta, Twitter e TikTok têm sido usadas em campanhas coordenadas de manipulação política e propaganda institucional (Bradshaw & Howard, 2019). Tal como observa Wynn‑Williams (2026), muitas vezes as plataformas priorizam crescimento e monetização em detrimento da ética e da responsabilidade social.
3. Legislação e Responsabilidade Estatal
Um exemplo recente da consciência estatal sobre a desinformação é a aprovação pelo Parlamento angolano da Proposta de Lei Contra Informações Falsas na Internet, com 97 votos a favor, 74 contra e três abstenções (JA Online, 22 jan. 2026). O diploma reconhece o impacto profundo das fake news, não apenas no campo político, mas também social e emocional, afetando famílias e jovens (Oliveira, 2026).
Durante o debate, o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, destacou que a propagação de informações falsas pode destruir laços familiares e causar problemas emocionais graves entre jovens, reforçando a necessidade de regulação e educação digital.
4. Teorias Clássicas e Perspectivas Contemporâneas
A influência dos media na sociedade e na política não é novidade. Herman e Chomsky (1988), no Modelo da Propaganda, mostraram como a concentração dos meios de comunicação pode moldar percepções e fabricar consentimento. Com a ascensão das plataformas digitais, este poder foi amplificado por algoritmos que seleccionam e amplificam informação de forma sistemática.
Bakir e McStay (2018) argumentam que a manipulação digital ultrapassa a persuasão tradicional quando os fluxos de informação são deliberadamente curados para restringir reflexão ou escolha livre, transformando estratégias de comunicação em formas de coerção informacional.
5. Geopolítica, Soft Power e Soberania Digital
Do ponto de vista geoestratégico, o território em disputa na era digital não é físico, mas sim o fluxo de dados, a narrativa global e a infraestrutura de comunicação online (Gorwa, 2019). Já não se trata apenas de quem controla portos ou territórios, mas de quem controla algoritmos e plataformas capazes de moldar percepções mundiais. Essa realidade coloca as redes sociais no centro da soberania digital, exigindo que os Estados protejam não só o seu espaço físico, mas também o seu ecossistema de informação (Deibert, 2013).
Observadores alertam que plataformas como Meta, Google e TikTok atuam como soberanias paralelas, com capacidade de influenciar eleições, políticas públicas e relações diplomáticas, transformando a informação digital num novo campo de disputa de poder (Bradshaw & Howard, 2019).
6. O Papel dos Estados na Regulação e Protecção
A aprovação da Proposta de Lei Contra Informações Falsas em Angola demonstra que os Estados podem e devem assumir um papel activo na proteção da integridade digital e da estabilidade social. Para isso, é essencial que desenvolvam políticas que:
1. Protejam a soberania digital, garantindo que dados e conteúdos não sejam manipulados por interesses externos ou corporativos.
2. Regulem algoritmos e plataformas, promovendo transparência e responsabilização sobre a moderação de conteúdos.
3. Eduquem cidadãos, fortalecendo a literacia mediática e crítica, reduzindo a vulnerabilidade à desinformação.
4. Promovam cooperação internacional, pois a desinformação e a manipulação digital transcendem fronteiras e exigem respostas coordenadas.
Finalmente, é importante reconhecer que o relato de Wynn‑Williams e a recente legislação angolana convergem numa mensagem clara: as redes sociais não são meramente plataformas de comunicação, mas arenas de poder e influência geopolítica. À medida que a tecnologia se concentra em poucas mãos, as escolhas éticas e políticas das corporações têm impacto directo sobre sociedades inteiras.
Para proteger cidadãos, instituições e processos democráticos, os Estados devem assumir uma vigilância activa e responsável, criando mecanismos legais, educativos e institucionais que equilibrem o poder corporativo com o interesse público. Numa era em que a informação circula à velocidade da luz, a ética e a soberania digital deixam de ser opcionais, tornam-se imperativas.
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