A expressão “busca da felicidade”, consagrada na Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, em 1776, constitui um dos mais influentes fundamentos do pensamento político moderno. Redigida sob forte influência do Iluminismo, sobretudo de John Locke, esta ideia estabelece que os indivíduos possuem direitos naturais e inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e o direito de procurar uma existência plena. Para Locke (1690), o objectivo último da organização política é a preservação da vida, da liberdade e da propriedade, entendidas como condições essenciais para a realização humana.
Importa sublinhar que a “busca da felicidade” não representa uma promessa de bem-estar garantido pelo Estado, mas sim a obrigação deste de não impedir injustamente o cidadão de construir o seu projecto de vida. Trata-se, como refere Alexis de Tocqueville (1835), de um princípio que limita o poder político e coloca o indivíduo no centro da ordem constitucional.
Todavia, quando este ideal é observado à luz da realidade angolana contemporânea, surge uma tensão evidente entre o discurso normativo e a experiência social concreta. A questão central deixa de ser filosófica e passa a ser profundamente política e social: é possível falar em busca da felicidade num contexto em que a maioria das famílias enfrenta uma deterioração persistente das condições de vida?
1. O dado empírico como espelho da realidade social
Um retrato particularmente elucidativo desta contradição é apresentado pelo jornal Expansão, numa reportagem assinada por Estêvão Martins, publicada a 26 de janeiro de 2026, com o título “Pessimismo das famílias em queda há três trimestres consecutivos”. O artigo baseia-se no Indicador de Confiança do Consumidor (ICC), divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), relativo ao III trimestre de 2025.
Segundo o INE, o pessimismo das famílias angolanas quanto à evolução da situação económica e financeira do país registou uma queda por três trimestres consecutivos. No entanto, esta tendência positiva deve ser analisada com prudência, uma vez que o indicador permanece em terreno negativo há quase seis anos, desde a sua primeira publicação.
Os números são claros e não deixam margem para leituras excessivamente optimistas. No final de 2024, o ICC situava-se em -19,7 pontos. No I trimestre de 2025 passou para -16,7, no II trimestre para -16,4, e no III trimestre de 2025 fixou-se em -15,0 pontos. Há, portanto, uma melhoria gradual, mas o sentimento dominante continua a ser de desconfiança e insegurança social.
2. Uma melhoria estatística sem transformação estrutural
De acordo com o Expansão, a ligeira redução do pessimismo resulta essencialmente de três factores. O primeiro é o abrandamento da inflação, ainda que esta continue elevada e a corroer de forma significativa os rendimentos das famílias, confirmando o alerta de Joseph Stiglitz (2012), segundo o qual a inflação, quando não acompanhada por crescimento real dos salários, agrava as desigualdades e fragiliza a coesão social.
O segundo factor apontado é o aumento salarial de 25% na função pública, ocorrido no ano anterior. Todavia, o próprio artigo reconhece que este ganho foi amplamente neutralizado pelas sucessivas subidas dos preços do gasóleo, da água, da electricidade e dos transportes públicos, o que reduz drasticamente o impacto positivo da medida no poder de compra real das famílias.
O terceiro elemento é o ciclo eleitoral, fenómeno recorrente em contextos democráticos frágeis, em que a proximidade de eleições tende a gerar expectativas de mudança. Como sublinha Adam Przeworski (1991), a esperança política muitas vezes antecede a transformação económica, mas nem sempre se converte em melhoria estrutural das condições de vida.
3. Pessimismo persistente e instabilidade social
Apesar da ligeira melhoria do indicador, o ICC mantém-se negativo devido à deterioração efectiva das condições de vida, marcada por falta de emprego, baixos salários, elevado custo de vida, dificuldades no consumo e na poupança, bem como pelo aumento da pobreza e da instabilidade social.
A dimensão humana deste fenómeno é simbolicamente retratada na legenda da fotografia que acompanha a reportagem:
“Jovens praticam venda ambulante de forma arriscada no meio da estrada, na Avenida 21 de Janeiro, em Luanda.”
Esta imagem traduz aquilo que Amartya Sen (1999) define como privação de capacidades: indivíduos forçados a aceitar condições de risco e informalidade extrema, não por escolha livre, mas por ausência de alternativas reais. Aqui, a “busca da felicidade” converte-se numa estratégia de sobrevivência, frequentemente incompatível com segurança, dignidade e cidadania plena.
4. A leitura dos especialistas
O economista Gaspar João, citado pelo Expansão, reforça este diagnóstico ao afirmar que a situação das famílias é marcada por uma combinação complexa de inflação persistente, fraco poder de compra e desemprego elevado. Segundo ele, a percepção dominante é a de que as políticas do Executivo não têm sido eficazes na devolução do bem-estar social, razão pela qual a confiança continua negativa e tende a manter-se assim caso não ocorram mudanças estruturais profundas.
Esta análise converge com a crítica de Pierre Rosanvallon (2011), que alerta para o risco de democracias formais coexistirem com sentimentos generalizados de abandono social, corroendo a legitimidade do Estado.
5. Da busca da felicidade à centralidade da dignidade humana
É neste contexto que o princípio da “busca da felicidade” deve ser reinterpretado em Angola. Antes de felicidade, o desafio central é a dignidade humana, conceito que Immanuel Kant (1785) coloca no centro da ética política, ao afirmar que o ser humano deve ser sempre tratado como um fim em si mesmo e nunca apenas como meio.
Num país em que uma parte significativa da população:
depende da informalidade para sobreviver;
vê o salário desaparecer antes do fim do mês;
não encontra emprego apesar da formação;
ou vive à mercê do favor e não da regra;
não se pode falar seriamente de liberdade para procurar felicidade.
Diferentemente do modelo liberal clássico norte-americano, em que o Estado deve sobretudo não interferir, o Estado angolano é chamado a agir positivamente, criando condições mínimas de igualdade de oportunidades. Como defende Esping-Andersen (1990), sociedades marcadas por fortes desigualdades exigem Estados activos na promoção do bem-estar e da inclusão social.
Finalmente, é importante referir que os dados apresentados pelo Expansão demonstram que o pessimismo das famílias pode estar a cair nos relatórios estatísticos, mas a realidade social continua marcada pela precariedade e pela incerteza. Enquanto a melhoria for mais psicológica do que estrutural, mais eleitoral do que económica, a “busca da felicidade” permanecerá um ideal distante.
Em Angola, a felicidade começa quando o cidadão pode viver com dignidade, estudar sem humilhação, trabalhar sem cunhas, empreender sem medo, viver sem favores e envelhecer com respeito.
Sem dignidade, a felicidade é retórica.
Sem políticas públicas eficazes, a esperança é frágil.
E sem impacto social real, a governação resume-se a números sem rosto.
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