A segunda volta das eleições portuguesas só não foi renhida porque o país entrou em modo defensivo e quando uma sociedade está sob pressão e Portugal está, com essas cheias, as falhas de energia, os constrangimentos logísticos e até há zonas que vão votar fora da data normal, claramente o eleitorado não arrisca. Como se diz no MPLA, fecham-se fileiras. Escolhe-se sempre o que conhece. Vota-se para evitar surpresas.
As calamidades tiveram aqui um papel central. Não apenas pelo impacto material, mas pelo efeito psicológico colectivo. Quando há cheias, instabilidade na rede eléctrica, dúvidas sobre o funcionamento do Estado e até discussões sobre adiar eleições, o cidadão comum não está disponível para experiências políticas. Quer previsibilidade, quer alguém que represente a continuidade institucional, mesmo que não entusiasme.
Isso favoreceu claramente António José Seguro. Não porque tenha feito uma campanha extraordinária, na verdade, quase não houve campanha nessa segunda volta, mas porque a ausência de campanha penaliza sempre o candidato que precisa de mobilizar contra o sistema. E esse era André Ventura. Ventura precisa de emoção, presença, confronto, rua. Nada disso existiu em força, porque o país estava ocupado a lidar com emergências reais.
Outro factor decisivo foi o voto útil que funcionou sem grande resistência. Muitos eleitores que poderiam ter ficado em casa ou dividido o voto optaram por uma escolha simples, “vamos resolver isto já”. Isso mata a disputa apertada. A segunda volta deixou de ser uma batalha ideológica e passou a ser uma decisão administrativa do eleitorado.
A abstenção também explica tudo. Quem está cansado, afectado por calamidades ou sente que o Estado falhou no básico, tende a não votar. E quem vota nessas condições é, regra geral, o eleitor mais institucional, mais disciplinado, mais previsível. E isso distorce o equilíbrio e alarga a margem do vencedor.
Portanto, a eleição não foi renhida não porque o país esteja politicamente resolvido, mas porque o contexto não permitiu tensão eleitoral máxima. O país não estava em clima de confronto democrático, estava em clima de gestão de crise.
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