Ao longo dos últimos dois séculos, os Estados Unidos consolidaram-se como uma das potências mais intervencionistas da história moderna. Sob o pretexto de defender a democracia, a liberdade ou a segurança nacional, o governo norte-americano orquestrou dezenas de operações – abertas ou encobertas – para derrubar governos, instalar líderes fantoches e reconfigurar nações inteiras de acordo com os seus interesses geopolíticos e económicos. Ao analisar o envolvimento dos Estados Unidos em mudanças de regime, o resultado expõe, de forma detalhada, um padrão histórico que revela não apenas a amplitude geográfica dessas intervenções, mas também a profundidade das suas consequências.
A história do envolvimento dos Estados Unidos em mudanças de regime ao redor do mundo não é apenas um registo de intervenções militares e operações encobertas. É a crônica de um sistema baseado na violência sistemática, no desrespeito à soberania alheia e na imposição de interesses geopolíticos e económicos sobre os destinos de nações inteiras. Do Havaí ao Irão, da América Latina ao Sudeste Asiático, a lógica é invariavelmente recorrente: sempre que um governo nacionalista, progressista ou simplesmente inconveniente aos olhos de Washington emerge, ou que se atreva em colocar os interesses de seus povos acima das exigências de Washington, os mecanismos de desestabilização são imediatamente activados – invariavelmente desestabilizados, subvertidos – seja por meio de golpes militares, financiamento de insurgências, campanhas de desinformação, sanções económicas ou simplesmente bombardeados. O objectivo é o mesmo: garantir a subserviência aos interesses norte-americanos.
Um dos casos mais emblemáticos é o do Irão, em 1953. O primeiro-ministro democraticamente eleito, Mohammad Mossadegh, ousou nacionalizar o petróleo iraniano, até então controlado pelos britânicos. Sua única “falha” foi colocar os interesses do seu povo acima dos lucros estrangeiros. A resposta veio na forma da Operação Ajax, orquestrada pela CIA e pelo MI-6, que o depôs e reinstaurou a ditadura do Xá Mohammad Reza Pahlavi. O resultado? Décadas de repressão, o fortalecimento de forças extremistas e uma das revoluções mais anti-americanas da história – a Revolução Islâmica de 1979.
O método se repete na Guatemala (1954), no Congo (1960), no Brasil (1964), no Chile (1973) e na Indonésia (1965), onde os Estados Unidos não apenas apoiaram, mas activamente participaram de golpes que resultaram em massacres, torturas e décadas de retrocesso democrático. No caso indonésio, a CIA forneceu listas de supostos comunistas que foram sistematicamente assassinados – entre 500 mil e 3 milhões de mortos. Um genocídio silenciado pela geo-política.
Mais recentemente, vimos a repetição do roteiro na Iugoslávia (2000), no Iraque (2003) e na Líbia (2011). Em todos esses casos, a narrativa oficial falava em “levar a democracia”. O que se viu, porém, foi o caos institucional, o fortalecimento de grupos extremistas e a destruição de Estados funcionais. O Afeganistão, após 20 anos de ocupação, é outro exemplo eloquente do fracasso desse modelo intervencionista.
O que todos estes eventos revelam com clareza é que a política externa norte-americana não se guia por princípios éticos ou democráticos, mas por uma lógica de poder.
O histórico intervencionista expõe uma verdade inquietante: a chamada “ordem internacional baseada em regras” sempre foi, na prática, uma ordem baseada na hegemonia. Os Estados Unidos invocam o direito internacional quando lhes convém, mas violam sistematicamente a Carta da ONU sempre que seus interesses estão em jogo. A proibição do uso da força contra a integridade territorial de outros Estados, consagrada no artigo 2.º n.º 4 da Carta das Nações Unidas, foi atropelada dezenas de vezes – do golpe no Irão em 1953 à invasão do Iraque em 2003, passando pela desestabilização da Síria e pelas ameaças permanentes à Venezuela.
A intervenção na Venezuela, soa como um alerta: o modus operandis não mudou. A hegemonia norte-americana, em declínio relactivo, recorre cada vez mais à força bruta como instrumento de política externa. Mas, como a história demonstra, mudanças de regime impostas de fora raramente trazem estabilidade ou democracia. Em vez disso, semeiam ódio, aprofundam divisões e criam as condições para novos conflictos.
O que sustenta essa violência sistemática é precisamente a arquitectura unipolar que emergiu após a dissolução da União Soviética. Durante três décadas, o mundo viveu sob o domínio de uma única potência que se arvorou o direito de definir quem são os “bons” e os “maus” actores no cenário internacional, que estabeleceu um “excepcionalismo” segundo o qual as regras se aplicam a todos, menos a si mesma. Foi nesse contexto que vimos a expansão da OTAN para as fronteiras da Rússia, a destruição da Líbia sob o pretexto de “proteger civis” e a ocupação do Iraque com base em mentiras sobre armas de destruição em massa.
A resposta a esse quadro de arbítrio e violência não pode vir de dentro do próprio sistema hegemônico. Não se pode esperar que o “hegemô” se auto-contenha ou que mecanismos internacionais enfraquecidos – como a ONU, tantas vezes paralisada pelo poder de veto norte-americano – ofereçam qualquer garantia real de soberania aos povos do Sul Global. A única alternativa viável, e cada vez mais urgente, é a construção efectiva de um mundo multipolar.
O que significa um mundo multipolar? Significa um sistema internacional onde nenhum país ou bloco detém o monopólio da força ou da narrativa. Onde potências regionais – como China, Rússia, Índia, Brasil, Irão, Turquia, África-do-Sul e outras – possam equilibrar o tabuleiro geopolítico, criando espaços de autonomia para que as nações desenvolvam seus próprios caminhos, sem subserviência a ditames externos. Significa a valorização do direito internacional não como instrumento de dominação, mas como verdadeiro guardião da soberania e da auto-determinação dos povos.
Os BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai, a União Africana, a CELAC e outras iniciativas de integração regional representam passos importantes nessa direcção. Elas expressam a recusa crescente de aceitar a velha lógica colonialista travestida de “ordem liberal”. Quando o Irão, após o golpe de 1953, viu seu líder democraticamente eleito substituído por uma ditadura fantoche; quando a Indonésia perdeu entre 500 mil e 3 milhões de vidas em massacres facilitados pela CIA; quando a Guatemala, o Chile e o Brasil tiveram suas experiências democráticas interrompidas por golpes apoiados por Washington – o que faltou a esses países foi justamente um sistema internacional que lhes oferecesse protecção efectiva contra o abuso de poder.
A multipolaridade não é uma abstração geo-política distante. É uma necessidade concreta para a sobrevivência de nações soberanas. É o reconhecimento de que a diversidade de modelos políticos, económicos e culturais é um valor a ser preservado, e não uma ameaça a ser eliminada. É a afirmação de que o mundo é grande demais, complexo demais e rico demais para ser governado por um único centro de poder.
A história ensina que impérios caem, hegemonias se desfazem, mas os povos permanecem. O que está em jogo não é apenas a reconfiguração do poder mundial, mas a própria possibilidade de um futuro onde a guerra e a intervenção deixem de ser instrumentos normais da política externa. Um mundo multipolar não é a garantia automática da paz, mas é a condição indispensável para que o diálogo, o direito e o respeito mútuo possam, enfim, prevalecer sobre a força bruta.
Chega de golpes. Chega de bombas disfarçadas de democracia. Chega de um mundo onde alguns se julgam no direito de decidir o destino de todos. A hora é de construir, com coragem e determinação, a multipolaridade – não como ideal distante, mas como urgência soberanista do nosso tempo.
O momento actual, com a ascensão de novas potências e o declínio relactivo da hegemonia norte-americana, oferece uma janela histórica para essa transformação. Mas ela não ocorrerá automaticamente. Exige a articulação consciente e organizada das forças que rejeitam a violência sistemática e o abuso de poder. Exige que os povos do mundo – especialmente aqueles que mais sofreram com as intervenções imperiais – se levantem em defesa de sua soberania e exijam um lugar à mesa das decisões globais.
Cabe à comunidade internacional, especialmente aos países do Sul Global, rejeitar esse modelo e defender o respeito à soberania nacional, ao direito internacional e à auto-determinação dos povos. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir, impassíveis, à repetição dos mesmos erros – com os mesmos custos humanos e as mesmas consequências trágicas.
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