A transformação agrícola brasileira não foi um acaso histórico, mas o resultado de uma decisão estratégica: investir em ciência pública de forma consistente e orientada para resultados. A criação da Embrapa, em 1973, marcou o início de uma revolução silenciosa que alterou a geopolítica alimentar do Brasil.
O país que, nos anos 1960, importava alimentos básicos, tornou-se uma das maiores potências agrícolas do mundo. Essa mudança não foi apenas produtiva; foi estrutural, institucional e estratégica.
Ciência aplicada como política de Estado
Theodore Schultz defendia que o desenvolvimento agrícola depende do investimento em conhecimento e capital humano. A experiência brasileira confirma essa visão: a Embrapa adaptou culturas temperadas ao clima tropical, desenvolveu técnicas de correcção de solos ácidos no Cerrado e criou sistemas produtivos ajustados à realidade local.
O Cerrado, antes considerado impróprio para agricultura intensiva, transformou-se num dos maiores celeiros globais. Tal não ocorreu por expansão desordenada, mas por ciência aplicada.
Douglass North argumenta que instituições eficazes moldam o desempenho económico de longo prazo. A Embrapa tornou-se uma instituição estável, técnica e relativamente protegida de oscilações políticas conjunturais, garantindo continuidade estratégica.
Produtividade com sustentabilidade
O crescimento da produção agrícola brasileira foi sustentado pelo aumento da produtividade e pela inovação tecnológica. A integração Lavoura-Pecuária-Floresta, a fixação biológica de nitrogénio e o melhoramento genético reduziram custos e impactos ambientais.
Ignacy Sachs defendia o ecodesenvolvimento como modelo que concilia crescimento económico e responsabilidade ambiental. A agricultura tropical moderna brasileira incorporou progressivamente esse paradigma.
Michael Porter, ao analisar a competitividade das nações, sustenta que a vantagem competitiva duradoura nasce da inovação sistemática. O agronegócio brasileiro tornou-se competitivo globalmente porque foi alicerçado em pesquisa científica própria.
Impacto económico e soberania estratégica
Joseph Schumpeter via na inovação o motor da transformação estrutural. A Embrapa representou essa ruptura no Brasil. O país passou a liderar exportações de soja, carne bovina, carne de frango, açúcar e café.
Mais do que comércio, trata-se de soberania alimentar e estabilidade macroeconómica. Amartya Sen recorda que o desenvolvimento é a expansão de capacidades, e a capacidade científica brasileira foi decisiva para ampliar a sua autonomia económica.
Que lições Angola deve retirar?
Angola possui vastas extensões de terra arável, diversidade climática e potencial hídrico significativo. Contudo, continua dependente de importações alimentares em larga escala. A experiência da Embrapa oferece ensinamentos claros.
1. Criar uma instituição forte, técnica e autónoma
Angola necessita de um Instituto Nacional de Pesquisa Agrária robusto, com autonomia técnica, orçamento estável e foco em resultados mensuráveis.
Não basta existir formalmente. É necessário assegurar:
* Continuidade estratégica
* Protecção contra interferências político-partidárias
* Recrutamento meritocrático de investigadores
Como defende Douglass North, instituições sólidas reduzem incertezas e impulsionam o crescimento.
2. Investir na adaptação tecnológica local
Importar sementes e tecnologias estrangeiras não resolve o problema estrutural. É fundamental:
* Desenvolver variedades adaptadas aos solos angolanos
* Estudar a fertilidade específica de cada região, como o Planalto Central, o Leste e o Sul
* Investir em irrigação e mecanização ajustadas ao clima local
Theodore Schultz demonstrou que os agricultores são racionais, mas necessitam de tecnologia adequada às suas condições reais.
3. Integrar investigação, extensão rural e financiamento
A pesquisa só gera impacto quando chega ao produtor. Angola precisa articular:
* Centros de investigação
* Serviços de extensão rural
* Linhas de crédito agrícola
* Programas de formação técnica
Sem esse ecossistema integrado, a ciência permanece nos relatórios e não no campo.
4. Transformar a agricultura em política estratégica de Estado
A agricultura não deve ser vista apenas como sector social, mas como sector estratégico de soberania e diversificação económica.
Michael Porter recorda que sectores competitivos exigem estratégia nacional coerente. Angola precisa decidir se quer continuar dependente das importações ou tornar-se uma potência agrícola regional.
5. Apostar na formação de capital humano
Sem investigadores, engenheiros agrónomos, técnicos e gestores rurais qualificados, não há revolução agrícola.
Amartya Sen enfatiza que o desenvolvimento depende da expansão das capacidades humanas. Angola deve investir:
* Em bolsas de mestrado e doutoramento em ciências agrárias
* Em parcerias internacionais estratégicas
* Na retenção de talentos
6. Priorizar a sustentabilidade desde o início
Ao contrário do que ocorreu em algumas regiões do mundo, Angola tem a oportunidade de estruturar a sua agricultura já sob um paradigma sustentável:
* Recuperação de solos degradados
* Uso racional da água
* Agricultura de baixo carbono
* Integração Lavoura-Pecuária-Floresta adaptada ao contexto nacional
Portanto, a experiência da Embrapa demonstra que solos pobres não são destino; são desafio científico.
O Brasil transformou limitação em vantagem competitiva porque decidiu investir em ciência como política de Estado.
Angola enfrenta hoje uma escolha estratégica semelhante:
Continuar dependente das importações alimentares ou investir decididamente em investigação agrária nacional?
A verdadeira soberania não nasce apenas da terra que possuímos, mas da inteligência que aplicamos sobre ela.
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