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Angola: Onde a vaidade fala mais alto do que o conhecimento – Correio da Kianda

Em Angola, a vaidade não espera convite. Entra, senta-se à mesa e fala alto, mesmo quando não foi chamada. Aqui, não basta saber pouco; é preciso parecer saber tudo. O silêncio é visto como fraqueza, a escuta como atraso e a prudência como falta de “visão estratégica”. Quem não opina sobre tudo é rapidamente catalogado como irrelevante. Afinal, num país onde até a ignorância exige palco, o recato tornou-se suspeito.

Exibimos diplomas como troféus de caça, mesmo quando o animal nunca foi abatido. Falamos de Big Data sem dados, de inteligência artificial sem inteligência, de governação sem governo e de estratégia sem rumo. O essencial não é dominar o assunto, é dominá-lo verbalmente. Em Angola, o desconhecimento não constrange; inspira discurso. Quem sabe pouco fala muito; quem sabe de verdade aprende a calar-se, porque o ruído não aceita concorrência.

Existe uma urgência quase patriótica em mostrar brilho, mesmo quando a lâmpada está fundida. O ego precisa de holofote, ainda que a ideia não precise de luz para morrer. Aqui, a vaidade não é defeito; é método. Confunde-se autoconfiança com arrogância, liderança com barulho e autoridade com pose. Quanto menos substância, mais performance. É o teatro do saber: ensaia-se o tom, improvisa-se o conteúdo e aplaude-se o vazio.

Greene avisaria que quem exibe demasiado o próprio engenho provoca resistência, inveja e oposição. Em Angola, fomos além: provocamos plateias cansadas e problemas intactos. O poder que se anuncia em excesso acaba prisioneiro da própria encenação. O verdadeiro estratega age; o vaidoso explica, justifica, repete e posa para a fotografia. Um constrói resultados; o outro constrói narrativas sobre resultados que ainda vêm “no próximo plano”.

Talvez por isso Baltasar Gracián soe quase subversivo entre nós ao dizer que não se deve ostentar o engenho, mas deixar que o descubram. Aqui preferimos o inverso: ostentar antes de ter, falar antes de saber, aparecer antes de fazer. Ser simples exige coragem; ser vaidoso exige apenas um microfone. E assim seguimos, brilhantes em palavras, pobres em silêncio, ricos em ego e escassos em obra.

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