A realização, em Luanda, nos dias 24 e 25 de Novembro de 2025, da primeira Cúpula União Africana–União Europeia foi de facto um marco político importante para o continente africano e principalmente um handcup positivo para a diplomacia angolana. Contudo, se analisarmos com um pouco de cuidado e cálculo realista, esse encontro de âmbito multilateral acaba por expor, de forma clara, se assim quisermos colocar, um movimento estratégico da União Europeia (UE) para recompor e defender a sua influência num continente que já não gira, prioritariamente, em torno das antigas metrópoles, mas sim das novas potências globais sobretudo a China.
O realismo político defendido por Hans Morgenthau pontua a ideia de que os Estados, a nível do sistema internacional movem pelos seus interesses, e esses interesses são definidos em termos de poder, expectados cada vez na tentativa contínua de expansão de influência e maximização de poderes e ganhos no sistema.
Apesar de que tal evento configura imagens semi-concretas de “cooperação”, “desenvolvimento sustentável” e “parcerias mutuamente benéficas”, sob o enfoque realista, os Estados não se movem por altruísmo, pela moralidade colectiva, mas sim por interesses permanentes e foco na sobrevivência no sistema internacional. Tem sido visível nos últimos 15 anos, a perda da hegemonia da União Europeia a nível do continente em matéria das caudas do multeralismo, e tais caudas têm sido deslocadas para o oriente, preferenciando maiores interações entre a China e os países Africanos. Deste modo, podemos enfaticamente considerar que, a UE, pressionada pela sua perda progressiva de relevância em África, vê nesta nova configuração institucional uma tentativa de reorganizar o tabuleiro geopolítico africano, num momento em que o continente já consolidou uma profunda interdependência com a China.
Não podemos olhar a escolha de Luanda como uma decisão isolada e inocente para a concretização da magnifica cimeira. Angola é, hoje, um dos países africanos com maior diversificação de parcerias externas, configurando a ele, um valor muito estratégico a nível do continente africano, pois, os Estados externos ao continente têm subjectivamente desenhado Angola, como uma das portas de acesso favorável e confortável nas entranhas do continente, considerando o facto de Angola é um dos poucos países que:
- Mantém laços históricos e económicos com a Europa;
- Consolidou uma relação estrutural muito forte com a China, que financiou uma parte significativa da reconstrução pós-guerra;
- Tornou-se um actor diplomático relevante na África Austral e um dos centros financeiros emergentes da região.
Assim, a EU, estrategicamente aposta em Angola como ponto de entrada para uma reaproximação mais ampla ao continente, dada a sua liderança confortável no quadro da União Africana bem como nos diversos organismos regionais de cooperação onde este detém forte capacidade de influência. Assim sendo, o encontro UA–UE, mais do que um diálogo político, deve ser traduzido como um instrumento de reposicionamento europeu, perante uma competição internacional cada vez mais intensa.
Se a política internacional fosse de facto regida pelos valores e postulados proclamados e pelos tratados assinados, não seria de difícil opção olhar para a cúpula UA–EU como a representação de um novo capítulo de parceria equilibrada. Mas, a experiência diplomática comprovou múltiplas que os discursos multilaterais e compromissos formais raramente espelham as intenções verdadeiras. É por esta razão que, quando vemos a UE defender iniciativas como “transparência de negócios”, “sustentabilidade da dívida” e “governação”, devemos compreender essas expressões como instrumentos discursivos, projectados essencialmente na disputa pela influência política e econômica em África.
Já não é uma novidade para as lideranças africanas nem pelas lideranças europeias de que a EU perdeu terreno para a China em matéria de investimento em infraestrutura, mineração, transportes e telecomunicações no continente e tem vindo a ser um parceiro preferencial para as lideranças políticas africanas dado os benéficos que se obtém dessa parceira. O próprio modelo chinês, caracterizado pelo pragmatismo célere nas concretizações que se negoceia e pela sua dimensão menos impositora do ponto de vista normativo, tornou-se mais atrativo para muitos governos africanos. Logo, a estratégia europeia passa agora por tentar criar novos meios institucionais capazes de canalizar influencia, através da cooperação e parceiras “verdes”, pactos digitais, programas de juventude, fundos de financiamento “ético”. Embora cedo demais para concluir, mas, do ponto de vista realista esses eixos inovadores de cooperação são na verdade mais umas das tentativas de reconstruir soft power sobre o continente.
Dada esses factos, isto leva-me a crer que na verdade a cúpula de Luanda evidencia que a presença chinesa está no centro das preocupações europeias. Embora não nomeada directamente pelos discursos das lideranças europeias, mas a menção pairou sobre todas as discussões como um “fantasma estratégico”. Os europeus querem a todo custo evitar que o continente africano se torne, definitivamente, uma zona de predominância sino-africana.
Portanto essa a cúpula UA–EU para mim é, portanto, uma resposta europeia à constatação de que a sua presença em África deixou de ser natural e tornou-se competitiva. A UE sabe disso. A China também. E a União Africana tenta navegar com o máximo de autonomia possível, embora esta autonomia seja sempre relativa num sistema internacional competitivo.
Se esta iniciativa conseguirá reverter a tendência, é uma questão que dependerá muito mais das prioridades africanas, da forma como os Estados do continente gerirão essa competição, e da capacidade de transformar rivalidades externas em oportunidades internas.
É preciso demonstrarmos que a nossa África não é apenas objecto de disputa, mas um actual sujeito de extrema relevância para a nova configuração da ordem internacional em valores estratégicos. E o seu posicionamento estratégico determinará se a cúpula de Luanda será lembrada como um momento histórico de cooperação ou como o início de uma nova fase da disputa global pela alma e pelos recursos do continente.
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