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Cimeira UA – UE em Luanda: entre a geopolítica e a disputa pelo futuro de África – Correio da Kianda

A realização da Cimeira União Africana – União Europeia, marcada para os dias 24 e 25 de Novembro, em Luanda, coloca Angola no centro de uma disputa estratégica que ultrapassa o ritual diplomático. Mais do que um encontro de alto nível, este momento é um teste concreto à capacidade das duas organizações de redesenhar, de forma equilibrada, a arquitectura da cooperação num continente que se tornou palco privilegiado da competição global entre grandes potências.

A escolha de Luanda não é casual. Angola consolidou, nos últimos anos, um perfil diplomático respeitado, estabilizou a sua posição regional e adquiriu activos estratégicos, como o Corredor do Lobito, que hoje são decisivos para qualquer potência interessada em garantir acesso seguro a minerais críticos e rotas logísticas de valor global. Receber esta cimeira projecta o país para o centro da negociação das grandes transformações africanas.

Os temas sobre a mesa são densos e exigem leitura fria. A União Europeia chega a Luanda com duas peças fundamentais: o Acordo de Samoa, assinado em 2023 e ainda em processo de ratificação, e o pacote Global Gateway, que promete até 150 mil milhões de euros para projectos em África. Ambos representam a tentativa europeia de recuperar terreno numa disputa que já envolve fortemente Estados Unidos, China, Índia e Rússia.

O Acordo de Samoa pretende instituir uma base jurídica mais sólida e previsível para a cooperação política, económica e social entre os blocos. Mas a sua eficácia dependerá da forma como os parlamentos nacionais e a sociedade civil forem integrados no processo. Já o Global Gateway procura oferecer alternativas “mais transparentes” aos modelos de financiamento de outras potências. O desafio é claro: converter promessas financeiras em projectos reais, com calendários públicos, condicionalidades equilibradas e transferência tecnológica que fortaleça capacidades africanas.

O maior risco desta cimeira é transformar-se num exercício de relações públicas, repleto de declarações ambiciosas, mas com frágil execução prática. Divergências sobre migração, condicionalidades democráticas, segurança regional e autonomia estratégica africana podem travar resultados concretos. Ao mesmo tempo, a falta de métricas claras para monitorar o Global Gateway pode diluir compromissos relevantes.

Para Angola, a prioridade deve ser pragmática: captar investimentos que reforcem sectores estratégicos, energia, digitalização, mobilidade e cadeias logísticas, e exigir mecanismos de acompanhamento que impeçam promessas vazias. A capacidade de articulação regional e o posicionamento geoestratégico do país colocam-no numa posição privilegiada para influenciar a nova fase das relações UA–UE.

Se bem conduzida, esta cimeira poderá inaugurar um modelo de cooperação mais equilibrado, onde África deixa de ser receptora e passa a co-autora da sua agenda de desenvolvimento. O sucesso dependerá do rigor com que forem tratados os compromissos que a Europa traz. A história mostra que as melhores parcerias não se fazem com retórica, mas com contratos, prazos e execução verificável.

Luanda tem agora a oportunidade de mostrar que África não é apenas o palco… é também o actor principal.

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