O tempo não pára. E, com ele, também os homens mudam. Abel Chivukuvuku, o “Mais Velho”, já não tem a mesma vitalidade de outrora. São muitas batalhas nos “lombos” — militares, políticas e até pessoais. É um homem de resistência. Hoje, na terceira idade, mantém, contudo, a lucidez necessária para dizer o que muitos preferem calar. A sua recente entrevista à TV Zimbo não foi apenas um exercício de memória, mas uma verdadeira aula de ciência política.
Disse, com clareza, que Angola é, do ponto de vista legal, um Estado democrático. Mas acrescentou algo essencial: na prática, o país vive ainda em transição. Esta palavra — transição — é central. Revela que a democracia, embora consagrada na Constituição da República de Angola, não se enraizou plenamente no funcionamento das instituições. O texto legal proclama liberdades; a realidade, porém, insiste em limitá-las.
Figuras como Jonas Savimbi, Nito Alves e Daniel Chipenda marcaram momentos de ruptura na história política do país. Chivukuvuku, por sua vez, olha para o futuro. Não fala em armas nem em insurreição. A sua crítica é institucional — e, por isso mesmo, profundamente incisiva. Ao fazê-lo, desmonta a narrativa oficial de uma “democracia consolidada” e expõe o fosso entre a norma e a prática.
Mas o que significa viver numa transição sem fim? Significa habitar uma democracia suspensa: um sistema onde o povo é chamado a votar, mas raramente a decidir; onde as leis existem, mas nem sempre protegem; onde a liberdade é mais promessa do que experiência concreta.
A intervenção do “Mais Velho” é, assim, mais do que uma evocação do passado — é um alerta. Porque uma transição prolongada tende a transformar-se em estagnação. E a estagnação, longe de consolidar a democracia, alimenta o desencanto.
Romper este ciclo não é responsabilidade exclusiva dos partidos ou das instituições. É também um dever do cidadão, que deve exigir que a democracia saia do papel e se materialize na vida quotidiana. Como sugere Chivukuvuku, a liberdade não é concedida — é conquistada. E a transição só se cumpre quando a cidadania deixa de ser formal para se tornar efectiva.
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