Em Angola, a vida tem um jeito curioso de nos enganar. Promete dias perfeitos, empregos seguros, ruas sem buracos, casas bem construídas, corações sem cicatrizes. Sussurra que só vale tentar quando tudo estiver no lugar, quando o dinheiro der, quando os filhos dormirem tranquilos, quando os medos desaparecerem. E assim, a gente vai adiando o milagre. Adiando o recomeço. Adiando a própria história, esperando uma versão de nós que talvez nunca chegue.
Mas Deus não constrói destinos com pessoas impecáveis. Ele constrói com gente disponível. Com quem se levanta cedo para enfrentar o calor de Luanda ou o pó do Huambo. Com quem atravessa o trânsito de Benguela ou o silêncio das estradas da Huíla. Com quem, mesmo cansado, decide dar o passo.
A escada perfeita pode até parecer bonita, alinhada, segura, aos olhos de quem observa. Só que, muitas vezes, ela não sai do lugar. Fica encostada no muro da intenção, esperando o dia em que nos sentiremos dignos, prontos, merecedores. Já a escada torta, feita às pressas, com as mãos a tremer e o coração apertado, tem algo raro: ela sobe. Ela tenta. Ela move-se. Ela é acção. E aqui, em Angola, essa escada torta é aquela que te leva da banca improvisada à primeira venda de sucesso, que te ajuda a construir uma escola comunitária, que te faz lutar por um bairro melhor ou por um emprego justo, mesmo sem garantias.
E existe um mistério santo nisso. Deus honra a fé que se traduz em passo. Não é sobre fazer perfeito, é sobre fazer com verdade. É sobre levantar mesmo cansado, pedir perdão mesmo envergonhado, recomeçar mesmo com culpa, orar mesmo sem sentir nada. É sobre dar o primeiro passo com o pouco que se tem, mesmo que seja uma pequena banca no mercado da Sambizanga ou um projecto de bairro na Huíla, e ver Deus multiplicar o resto.
Jesus nunca exigiu que ninguém estivesse “arrumado” para ser tocado. Ele tocou leprosos, acolheu pecadores, restaurou quebrados, levantou caídos. Ele não esperou a perfeição para agir; Ele agiu para gerar transformação. E o mesmo Cristo continua a olhar para nós hoje, não para cobrar impecabilidade, mas para chamar à coragem.
Se você está à espera de um momento perfeito, talvez esteja à espera de mais do que devia. A bênção costuma morar no agora imperfeito: no sim trémulo de quem abre a sua banca com medo da concorrência; no esforço humilde de quem constrói uma sala de aula comunitária com tijolos improvisados; no gesto simples de quem ajuda o vizinho, mesmo quando também precisa de ajuda. Faça o que consegue hoje. Mesmo que pareça pequeno. Mesmo que pareça feio. Deus não despreza o começo. Ele abençoa.
Dê o passo. Agradeça antes de ver. Caminhe com o coração na mão, mas com os olhos Nele. Porque a acção, quando nasce da fé, supera qualquer perfeição. E quando você sobe, Deus sustenta, mesmo que a estrada seja poeirenta, os mercados cheios e os ventos contrários do país insistam em testar a sua coragem.
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