Geopolítica vs geoeconomia do Sul Global – Tarifa zero e integração económica: a nova fase das relações África – China – Correio da Kianda
A partir de 1.º de Maio de 2026, os produtos africanos exportados para a China deixarão de ser taxados. A China decidiu eliminar as tarifas sobre 100% dos produtos exportados pelos 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas. Essa medida fortalece a posição da China como o maior parceiro comercial da África e reforça a cooperação Sul–Sul, ao ampliar o acesso ao mercado chinês para exportações africanas como café, têxteis, minerais, petróleo e produtos agrícolas.
Desde o início da década de 2000, as relações entre os países africanos e a China vêm se expandindo de forma constante nos sectores do comércio, infraestructura, manufactura, tecnologia e diplomacia. O que começou como uma parceria principalmente voltada para recursos naturais evoluiu para uma relação estratégica e económica mais ampla, baseada em acordos mútuos e cooperação para o desenvolvimento de longo prazo.
Formas de Cooperação Sino-Africana
A cooperação África–China ocorre principalmente por meio de dois canais: bilateral e multilateral.
Cooperação Bilateral
Neste nível, a China mantém acordos directos com parceiros africanos estratégicos, incluindo Angola, África do Sul, Nigéria, Quénia, República Democrática do Congo, Egipto e Argélia. Essas parcerias envolvem: Desenvolvimento de infraestrutura (estradas, ferrovias, portos e usinas de energia); Manufactura e criação de zonas industriais; Acordos no sector de mineração e petróleo; Comércio de importação e exportação; Cooperação em tecnologia e telecomunicações.
Por exemplo, Angola tem se beneficiado do acesso ampliado com tarifa zero, na ordem de 98% dos produtos anteriormente taxados desde 2025, abrangendo petróleo, diamantes, cobre e produtos agrícolas. Somente em dezembro de 2025, Angola exportou aproximadamente US$ 1,58 bilhão para a China, principalmente petróleo bruto (US$ 1,54 bilhão), além de gás natural e cobre refinado. No mesmo período, Angola importou cerca de US$ 399 milhões em bens da China, incluindo equipamentos de telecomunicações, caminhões e produtos siderúrgicos — demonstrando um comércio intenso, com sinais de diversificação em comparação com a parceria inicial estabelecida no início dos anos 2000, que era predominantemente centrada em recursos naturais.
Cooperação Multilateral
Ao nível multilateral, a China se relaciona com a África por meio de estruturas institucionais e blocos de cooperação. Entre as principais plataformas estão a União Africana (UA), o Fórum de Cooperação China–África (FOCAC), a Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) e o BRICS.
Por meio dessas estruturas, a cooperação concentra-se em: Modernização da infraestrutura; Industrialização; Parcerias na economia digital; Cooperação em segurança; Coordenação financeira; Estratégias de desenvolvimento Sul–Sul.
O Fórum de Cooperação China–África (FOCAC) permanece como a principal plataforma diplomática para compromissos de longo prazo. O BRICS também funciona como um mecanismo adicional de coordenação, especialmente envolvendo a África do Sul e outros países africanos participantes ou observadores.
A estratégia para 2026 enfatiza a modernização, a expansão da economia digital e o fortalecimento de uma parceria “para todas as condições”, voltada ao desenvolvimento económico sustentável.
Benefícios e Implicações Estratégicas da Tarifa Zero
A política de tarifa zero é estrategicamente vantajosa para ambos os lados.
Para a África:
Maior acesso ao mercado chinês; Aumento da competitividade das exportações agrícolas e minerais; Elevação das receitas de exportação; Potencial diversificação além das matérias-primas; Fortalecimento da soberania económica por meio do comércio Sul–Sul.
Para a China:
Garantia de acesso a matérias-primas estratégicas (petróleo, cobre, cobalto e minerais raros); Ampliação do fornecimento de produtos agrícolas e pesqueiros; Consolidação das relações estratégicas com a África; Reforço de sua posição como principal parceiro comercial do continente; Fortalecimento das alianças no âmbito do Sul Global.
Perspectivas Estratégicas
É importante sublinhar que, desde meados de 2025 e início de 2026, a China já vinha implementando uma política de tarifa zero sobre 98% a 100% dos produtos tributáveis importados de Angola e de outras nações africanas, abrangendo exportações importantes como petróleo, diamantes e produtos agrícolas.
A eliminação das tarifas sobre 100% das linhas tarifárias para 53 nações africanas sinaliza uma nova fase, mais profunda, da cooperação África–China. A medida aumenta a visibilidade e a competitividade da África no comércio global, ao mesmo tempo que reforça o posicionamento estratégico de longo prazo da China no continente.
Embora a medida ainda esteja por implementar, o impacto das relações África–China já se faz sentir intensamente há mais de uma década, com destaque para: A diversificação das exportações africanas além das matérias-primas; O avanço da industrialização nas economias africanas; A transferência de tecnologia e o desenvolvimento da manufactura local; A construção de estruturas comerciais mais equilibradas, bem como outros benefícios estruturais visíveis no continente.
Entretanto, se bem aproveitada, a política de tarifa zero poderá contribuir para facilitar a estratégia Africana em curso, isto é, tornar a região mais competitiva na economia global, permitindo uma transição de fornecedora de matérias-primas para produtora de bens com maior valor agregado, dentro da nova ordem económica Sul–Sul em consolidação.
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