O especialista em relações internacionais, Adalberto Malú, disse à Rádio Correio da Kianda, que o que está a acontecer na Guiné-Bissau, se encaixa no novo padrão de golpe de Estado nas geografias africanas.
Para o especialista, as motivações apresentadas pelo Comando Militar para a Restauração da Ordem Constitucional, sobre possível intervenção de forças internas e externas nos resultados eleitorais, serve dois objectivos que passam por deslegitimar qualquer vencedor declarado ou previsto, bem como criar pretextos para congelar o processo eleitoral sem parecer uma tomada de poder à força.
“Este é um modelo de golpe de Estado. Quando um alto comando declara que toma o poder para restaurar a ordem, na prática isso significa que as instituições falharam, e nós vamos restaurar a ordem” sublinhou.
Adalberto Malú explica que em contextos de tensões pós-eleitorais, a narrativa apresentada pelos militares é poderosa porque reforça a ideia de que o sistema estava corrompido à frente da própria intervenção, pelo que, acredita ser uma versão contemporânea de se silenciar para proteger.
O especialista afirma ainda que na prática, o que está acontecer na Guiné-Bissau significa a eliminação temporária da ordem constitucional, substituição do poder civil, pelo poder militar de forma directa, com vista a controlar não só o Estado, mas também o fluxo de informação e a narrativa pública.
Para o académico português Rui Verde, havendo ou não questões internas ou externas na Guiné-Bissau e na Região do Sahel, estes acontecimentos dão sinais sobre os “novos ventos de golpes em África”.
Rui Verde disse que o mais preocupante de tudo isso, é que se está criar um novo panorama de golpismo, com agravante de estar a acontecer numa altura em que África clama por desenvolvimento.
Entretanto, o candidato independente apoiado pelo Partido da Renovação Social (PRS) e pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que se declarou vencedor das eleições presidenciais do domingo último, considerou na noite desta quarta-feira, 26, que o país está a viver um “falso golpe de Estado”.
O político guineense que assegura que venceu às eleições, afirma que o suposto golpe de Estado, não passa de um plano montado por Umaro Sissoco Embaló, para entregar o poder aos militares, já que perdeu as eleições para castigar o povo guineense”.
Falando em parte incerta através de um vídeo divulgado nas redes sociais, Fernando Dias, que confirmou a detenção do líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, relatou que homens armados invadiram a sua sede de campanha, enquanto se reunia com observadores internacionais.
O político Bissau-guineense diz ter conseguido fugir “graças à intervenção rápida de jovens presentes no local”.
Fernando Dias também pediu à comunidade internacional que assuma as suas responsabilidades para que a Comissão Nacional de Eleições (CNE) possa anunciar os resultados eleitorais.
Já a Missão de Observação Eleitoral da União Africana (MOE-UA) condenou, de forma firme, o golpe de Estado ocorrido na Guiné-Bissau, que interrompeu o processo eleitoral em curso no país.
Num comunicado emitido esta quarta-feira, 26, a Missão expressa “profunda preocupação” com a deterioração da situação política e alerta que a interrupção forçada do processo democrático viola os princípios constitucionais e os compromissos assumidos pelos Estados-membros da organização continental.
A MOE-UA exige a libertação imediata de todos os detidos, incluindo figuras políticas, agentes eleitorais e civis, para que o país possa retomar a normalidade institucional e concluir, sem interferências, o ciclo eleitoral.
A organização apela ainda às autoridades militares envolvidas no levantamento para que cessem todas as acções ilegais, respeitem a ordem constitucional e garantam a integridade física dos detidos.
A União Africana reforça que está disposta a trabalhar com a CEDEAO e as Nações Unidas para apoiar a estabilização política na Guiné-Bissau e assegurar que o processo eleitoral seja concluído de forma transparente, pacífica e inclusiva.
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