Top Header Ad

Lealdade não dá diploma… mas talvez deveria – Correio da Kianda

Em Angola, há uma coisa curiosa: o cão nunca pergunta se o dono ainda tem emprego, se já perdeu o cargo, se foi exonerado ou se deixou de “ter padrinho”. O cão fica, sempre ficou e provavelmente ficará quando o resto do mundo já tiver mudado de passeio.

Aqui, onde o amor humano muitas vezes vem com cláusulas escondidas, “enquanto houver combustível”, “enquanto houver cargo”, “enquanto houver acesso”, o cão continua a ser o único ser que pratica afecto sem pedir comprovativo de rendimento.

Não abandona por idade, não abandona por pobreza, não abandona por doença. Já os humanos… bem, os humanos fazem contas, contam vantagens, contam contactos, contam benefícios. Se o saldo emocional der negativo, cancelam a relação sem aviso prévio.

O cão, esse, não conhece o conceito de “já não compensa”.

Enquanto o país ensina subtilmente que quem envelhece vira peso, quem adoece vira problema e quem empobrece vira invisível, o cão permanece ali, deitado ao lado da porta, fiel como se a dignidade fosse um hábito diário e não um discurso de campanha.

Em Angola, o cão anda com quem já não anda, espera por quem já não é esperado, divide o pouco sem perguntar se amanhã haverá mais. Ele não exige produtividade, nem resultados trimestrais, nem performance social. Só exige presença, coisa rara num país onde muita gente só aparece quando há algo para ganhar.

Talvez por isso o amor dos cães nos incomode tanto, porque ele denuncia, sem discurso político nem seminário académico, o quanto normalizámos abandonar pessoas quando deixam de ser úteis, fortes ou convenientes.

Aqui, lealdade não é trending topic. É risco, é prejuízo, é coisa de quem não sabe “se virar”.

Mas o cão sabe, e sabe melhor do que nós.

Lealdade não é barulhenta, não tem microfone, não tem palco, não tem subsídio.
É simples, diária e silenciosa.

E talvez, num país onde tanta gente fala de valores enquanto aprende a descartar pessoas, a maior lição de humanidade continue a vir daquele que nunca aprendeu a falar, mas nunca desaprendeu a ficar.

Crédito: Link de origem

Leave A Reply

Your email address will not be published.