Top Header Ad

Polémica: o verdadeiro motor do marketing político – Correio da Kianda

Na política contemporânea, a atenção vale mais do que o silêncio respeitoso. Tal como no mundo artístico e cultural, onde obras neutras raramente entram para a história, na política, a ausência de polémica equivale à irrelevância pública. A polémica, longe de ser mero acidente comunicacional, tornou-se uma estratégia deliberada de marketing político, usada para conquistar visibilidade, moldar identidades e disputar narrativas num espaço público saturado de informação.

O fenómeno do Trumpismo, nos Estados Unidos, ilustra de forma quase didáctica esta lógica. Donald Trump não venceu o debate político tradicional; venceu o debate simbólico, transformando a política num palco permanente, onde cada declaração polémica funcionava como um acto performativo, tal como um artista que compreende que o choque é, muitas vezes, mais memorável do que a harmonia. Em Angola, acontecimentos recentes, como a notificação do músico Dji Tafinha pelo SIC por alegada violência doméstica, ilustram como a polémica pode ser rapidamente convertida em palco público, sobretudo quando o protagonista, por coincidência, se encontra em processo de legalização de um partido político.

1. Política e Arte: a mesma disputa pela atenção

Pierre Bourdieu (1996) explica que todos os campos sociais vivem da disputa por capital simbólico. No mundo artístico, esse capital manifesta-se em notoriedade e consagração cultural; na política, traduz-se em visibilidade, autoridade e poder. Trump compreendeu esta lógica melhor do que muitos políticos profissionais: comportou-se menos como estadista clássico e mais como personagem cultural, rompendo com códigos tradicionais de decoro político.

Tal como artistas que desafiam convenções estéticas para serem notados, Trump desafiou normas discursivas, institucionais e morais, convertendo cada transgressão em combustível mediático. Em Angola, casos como o de Dji Tafinha mostram que a polémica pessoal, mesmo fora do campo político formal, pode ser explorada na arena pública para gerar visibilidade, especialmente quando o indivíduo inicia um percurso político. A política deixou de ser apenas debate racional e passou a ser espectáculo contínuo, semelhante a um reality show cuidadosamente encenado.

2. A polémica como motor de atenção e memória colectiva

Herbert Simon (1971) já advertia que a abundância de informação gera escassez de atenção. O Trumpismo levou este princípio ao extremo: uma polémica por dia garantia presença permanente na agenda mediática, reduzindo o espaço para adversários e neutralizando críticas através da saturação informativa.

Murray Edelman (1988) ajuda a compreender este fenómeno ao afirmar que a política opera essencialmente no plano simbólico. Trump raramente apresentava políticas detalhadas; oferecia símbolos simples, slogans fáceis e conflitos claros. “Make America Great Again” funcionou como obra artística minimalista: simples, repetível e emocionalmente poderosa.

Em Angola, notícias envolvendo Dji Tafinha têm ocupado o espaço mediático, transformando-se em tema de debate e opinião pública, mesmo sem julgamento final. A memória colectiva tende a fixar narrativas simbólicas, frases, imagens e polémicas, mais do que factos legais detalhados. A polémica, neste contexto, fixa narrativas e cria rótulos de percepção pública que podem influenciar futuros actores políticos.

3. Polémica não é escândalo: lição também aprendida na arte

Tal como no campo cultural, onde a provocação artística nem sempre equivale a degradação moral, na política, a polémica não se confunde automaticamente com escândalo. Trump navegou esta fronteira de forma calculada: normalizou comportamentos que, em outros contextos, seriam politicamente fatais, transformando o escândalo recorrente em ruído de fundo.

Darren Lilleker (2013) defende que estratégias de marketing político baseadas em confronto podem reforçar identidade e lealdade, desde que mantenham coerência narrativa. Trump nunca tentou agradar a todos; escolheu uma base, falou a sua linguagem e aceitou a rejeição do restante eleitorado como parte da estratégia.

Em Angola, actores como Dji Tafinha, que se projetam para novas arenas políticas, precisam gerir a polémica de forma estratégica. A simples exposição mediática não garante sucesso; sem coerência narrativa, a polémica corre o risco de prejudicar a reputação e dificultar projectos futuros, incluindo a legitimação de novos partidos.

4. Cultura popular, polarização e identidade política

Ernesto Laclau (2005) explica que a política constrói identidades através da polarização. O Trumpismo elevou esta lógica a uma estética própria: o “nós” (o povo verdadeiro) contra “eles” (elites, media, imigrantes, sistema). Esta estrutura é idêntica à da cultura popular: todo herói precisa de um inimigo claramente identificável.

Em Angola, a polémica sobre Dji Tafinha gerou polarização mediática: apoiantes defendem o músico e valorizam a sua carreira artística; críticos associam-no a comportamentos que colocam em questão a integridade pessoal e, potencialmente, a credibilidade política. Tal como na música de protesto, cinema político ou teatro social, a polarização simplifica narrativas complexas e facilita a identificação emocional do público. A polémica, aqui, não é apenas pessoal ou legal; torna-se um fenómeno de construção de identidade política e social.

5. Redes sociais: quando a política vira espectáculo

Guy Debord (1967) antecipou a política enquanto espectáculo, mas o Trumpismo materializou esta previsão de forma radical. Twitter (X) tornou-se o palco principal do poder presidencial, onde cada publicação funcionava como acto cénico, provocando reacções imediatas, indignação, aplausos e cobertura mediática gratuita.

Em Angola, a polémica envolvendo Dji Tafinha circulou rapidamente nas redes sociais, provando que vídeos curtos, declarações e controvérsias têm maior alcance do que análises ponderadas. A política, como a música popular ou o entretenimento digital, adapta-se ao ritmo da emoção e da repercussão mediática.

6. Exemplos angolanos: quando a polémica mobiliza

Tal como o Trumpismo mobilizou eleitores desencantados com o sistema tradicional, em Angola a polémica tem sido usada para captar:

Jovens frustrados com o desemprego;

Cidadãos desiludidos com promessas não cumpridas;

Grupos que se sentem excluídos da narrativa oficial do desenvolvimento;

Figuras públicas em transição para a política, como Dji Tafinha, que aproveitam visibilidade mediática para fortalecer a presença e credibilidade do seu projecto político.

Quando bem articulada, a polémica cria pertença e atenção estratégica. Quando mal gerida, gera apenas ruído e desgaste institucional.

7. Os riscos: quando a política vira caricatura

O Trumpismo também revela o lado sombrio da polémica permanente: erosão da confiança institucional, normalização do conflito e enfraquecimento do debate racional. Tal como na arte provocadora sem profundidade, a política excessivamente polémica corre o risco de se transformar em caricatura de si mesma.

Heather Savigny (2008) alerta que o marketing político excessivamente instrumental pode afastar cidadãos críticos e empobrecer a democracia. Em Angola, figuras como Dji Tafinha devem considerar que, embora a polémica atraia atenção, ela pode prejudicar projectos políticos futuros caso não seja gerida com estratégia e coerência narrativa.

8. Conclusão: a lição da arte para a política

O Trumpismo demonstra que a polémica é uma arma poderosa, mas perigosa. Tal como na arte, provocar não basta; é preciso sentido, direcção e responsabilidade histórica. A política que vive apenas do choque pode ganhar eleições, mas dificilmente constrói consensos duradouros.

Em Angola, a polémica pode ser um instrumento legítimo de ruptura com o conformismo político, desde que esteja ao serviço de um projecto de país, e não apenas da vaidade pessoal ou da notoriedade mediática de curto prazo.

No fim, a pergunta mantém-se incômoda e necessária:

A polémica é um acto de consciência política ou apenas mais um espectáculo sem legado?

Crédito: Link de origem

Leave A Reply

Your email address will not be published.