A declaração de Donald Trump sobre a Colômbia marca uma escalada verbal que não pode ser tratada como simples bravata eleitoral. Ao chamar o presidente colombiano de “homem doente” que “fabrica cocaína” e, logo depois, afirmar que uma operação dos EUA “parece boa”, Trump cruza a fronteira entre retórica agressiva e sinalização estratégica. Na política internacional, palavras ditas por um ex-presidente e potencial futuro presidente não são ruído. São ensaios de intenção.
A Colômbia sempre ocupou um lugar ambíguo na política externa dos EUA. Historicamente aliada, beneficiária de cooperação militar e peça central na chamada “guerra às drogas”, Bogotá era vista como parceiro, não como alvo. Trump inverte essa lógica ao personalizar o problema, deslocando a narrativa do combate ao narcotráfico para a deslegitimação direta da liderança política colombiana. Isso não é acaso; é método. Quando se transforma um governo aliado em vilão moral, prepara-se o terreno para ações “excepcionais”.
A resposta “isso parece bom para mim” à pergunta sobre uma possível operação americana é especialmente grave. Não confirma nada, mas normaliza a ideia. Trump opera assim: não anuncia, testa o ambiente. Se houver silêncio, avança. Se houver reação, recua taticamente. É a diplomacia do improviso calculado, perigosa porque mistura política doméstica com ameaças externas reais.
O argumento da cocaína não é novo. Serve há décadas como justificação para intervenções, sanções e militarização. O problema é que ele ignora deliberadamente a complexidade do narcotráfico: redes transnacionais, consumo interno massivo nos EUA, corrupção financeira global. Reduzir tudo a um presidente “doente” é intelectualmente pobre, mas politicamente eficaz para um discurso de força. Simplificar é mobilizar.
Para a Colômbia, o risco é duplo. Externamente, pode passar de parceira estratégica a problema de segurança. Internamente, esse tipo de discurso alimenta polarização e fragiliza ainda mais instituições já sob pressão. Uma “operação” americana, mesmo limitada, teria impacto devastador na soberania regional e abriria um precedente explosivo na América Latina: a reativação da lógica intervencionista direta no século XXI.
Há também o factor regional. Uma acção dos EUA na Colômbia não seria vista isoladamente. Venezuela, Brasil, Equador e até o México leriam isso como sinal de que Washington voltou à política do porrete, não da mediação. Num mundo já saturado de conflitos, essa postura só aumenta instabilidade.
Trump fala como quem vê o mundo como um tabuleiro de negócios mal geridos. Se algo não funciona, substitui-se pela força. Mas Estados não são empresas, e regiões inteiras não são projetos falhados a serem “corrigidos” com operações militares. A história latino-americana está cheia de exemplos de como isso termina: mais violência, menos controlo, zero soluções duradouras.
No fundo, esta declaração diz menos sobre a Colômbia e mais sobre a visão de poder que Trump representa. Uma visão onde cooperação cede lugar à coerção, e diplomacia é sinónimo de ultimato. Quando um líder começa a falar de aliados como alvos, o problema já não é o narcotráfico. É a arquitetura inteira da ordem regional que entra em risco. E esse tipo de jogo raramente tem vencedores.
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