A divulgação de que a Administração Trump entregou à liderança interina venezuelana um conjunto de exigências para evitar novas acções militares clarifica, sem ambiguidades, a natureza do momento político que a Venezuela atravessa. Não estamos perante a um processo clássico de transição democrática, mas sim diante de uma fase de reordenamento estratégico sob forte pressão externa, típica da lógica da ‘realpolitik’.
As exigências norte-americanas, como o combate ao narcotráfico, a expulsão de agentes iranianos e cubanos, a interrupção da venda de petróleo a adversários dos EUA, revelam as prioridades claras: segurança hemisférica, contenção de rivais sistémicos e o controlo indirecto de recursos energéticos estratégicos. A democracia surge apenas como elemento secundário e diferido no tempo. Quando Washington afirma esperar eleições livres, mas “não num futuro próximo”, está a admitir que a estabilidade funcional precede qualquer ideal normativo.
Neste contexto, a posição de Delcy Rodríguez é estruturalmente frágil. A sua liderança interina opera num espaço político condicionado, onde decisões fundamentais parecem ser negociadas sob a ameaça implícita do uso da força. Do ponto de vista analítico, isto aproxima-se mais de um regime de tutela informal do que de um exercício pleno de soberania. A perceção interna e externa de que poderá funcionar como instrumento de interesses alheios não é irrelevante: mina a legitimidade, aprofunda as divisões internas e fragiliza qualquer tentativa de reconstrução institucional.
A divisão da sociedade venezuelana reflecte exatamente esse dilema. Uma parte vê na pressão americana o fim de um regime autoritário e criminoso; outra identifica nela a substituição de uma dominação interna por uma dependência externa. Ambas as leituras coexistem porque ambas têm fundamento. A história latino-americana mostra que intervenções justificadas em nome da ordem ou da democracia raramente produzem autonomias políticas duradouras.
Em termos geopolíticos, o caso venezuelano confirma uma tendência mais ampla: o enfraquecimento da retórica multilateral e a afirmação crua do poder. As grandes potências continuam a decidir quando o Direito Internacional é norma e quando é obstáculo. A Venezuela tornou-se, mais uma vez, palco dessa disputa.
O risco maior não é apenas para Caracas, mas para o sistema internacional: normalizar a ideia de que a transição política de um Estado pode ser desenhada externamente, sob coerção, abre precedentes perigosos. A questão central permanece: haverá reconstrução soberana ou apenas gestão temporária de um país estrategicamente valioso? A resposta não está nos comunicados, mas na correlação de forças que se impõe no terreno.
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