Will Smith esteve em Angola. O facto é incontornável, assim como os possíveis ganhos são evidentes. Durante dias procurei esquivar-me do tema, convencido de que a visita resultaria mais em ruído do que em substância. No fim, como sempre, surgiram as críticas fáceis, as frases feitas, o populismo de ocasião. O mérito ainda que diminuto de uma grande estrela de Hollywood visitar um país africano rapidamente se dissolveu. Mas, por mais que se critique, e há razões para isso, não podemos negar que houve ganhos. E, sobretudo, lições.
O que se tornou estranho, quase desconfortável, foi ver o Ministro do Turismo, Márcio Daniel, assumir o papel de relações públicas de Will Smith. A certa altura, a impressão era de que não se tratava de projetar Angola como destino turístico, mas de servir de ponte para que a estrela brilhasse. O país deixou de ser protagonista da sua própria narrativa e passou a ser cenário. A inversão de papéis foi gritante: em vez de afirmar identidade, o Estado pareceu subalterno.
Márcio Daniel, Marcy Lopes, Pedro Fiete e Laurinda Cardoso têm, inegavelmente, o mérito de terem ascendido. Mas nenhum deles pode negar que Adão de Almeida foi o precursor decisivo das suas carreiras políticas. Pedro Fiete, quadro da administração pública, exerce funções na Presidência e tem feito o seu caminho. Laurinda Cardoso, Presidente do Constitucional, avança com tranquilidade. Já Márcio Daniel e Marcy Lopes demoram a engatar.
Marcy Lopes, ministro da Justiça, quase foi alvo de contestação dos oficiais de justiça. O aviso tornado público sobre a obrigatoriedade de apresentação do BI para a realização de funerais também não caiu bem. Por sua vez, Márcio Daniel teve uma passagem tímida pelo MAT, onde exerceu o cargo de Secretário de Estado para Autarquias, sem registo de avanços relevantes no setor. É precisamente no contraste que se revela a fragilidade: enquanto Adão de Almeida se impõe como disciplinado, responsável e politicamente urbano, Márcio Daniel e Marcy Lopes têm embaraçado mais do que apoiado a imagem coletiva do Executivo. As suas posturas, distintas mas convergentes no efeito, tornaram-se testemunhos negativos, criando sérios danos na comunicação política.
A visita de Will Smith, em si, não é o problema. O problema é estrutural: a falta de liderança. O Executivo aparece fragmentado, sem voz coesa, incapaz de transformar um momento de oportunidade em afirmação nacional. No fim do dia, fica claro que não há direção firme. O Presidente da República, a um ano das eleições, dificilmente fará alterações no seu Executivo, mas se tivesse de as fazer, não seria difícil recomendar substituições.
Esse conjunto de factos, aparentemente banal, é imagem de algo maior: quando o brilho externo expõe fragilidades internas. O espetáculo não deveria ofuscar o Estado. Pelo contrário, deveria ser ocasião para Angola se apresentar ao mundo com dignidade e narrativa própria. Enquanto a comunicação política depender de figuras externas para se legitimar, continuará refém do improviso e da estranheza.
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