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Juventude fora dos concursos públicos: falta de vagas ou falta de qualificação? – Correio da Kianda

Angola enfrenta um dos maiores desafios estruturais da sua história recente: alinhar a formação da sua juventude às exigências da economia digital. Enquanto o discurso público insiste na falta de oportunidades, os dados e a realidade empresarial revelam uma verdade mais complexa, há vagas, mas faltam competências técnicas especializadas para as ocupar.

O debate não pode continuar superficial. É preciso coragem intelectual para reconhecer que o desemprego juvenil, em muitos casos, não resulta apenas da escassez de postos de trabalho, mas do desajuste entre o perfil formativo e as exigências do mercado contemporâneo.

1. A Revolução Tecnológica e a Nova Economia do Conhecimento

Vivemos aquilo que Klaus Schwab denominou de Quarta Revolução Industrial, caracterizada pela fusão entre o mundo físico, digital e biológico. Segundo Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, esta transformação “não altera apenas o que fazemos, mas quem somos”. Essa afirmação tem implicações profundas para países em desenvolvimento como Angola.

O relatório Future of Jobs 2025 indica que milhões de empregos serão criados em áreas como Inteligência Artificial, Big Data, Segurança Cibernética e Computação em Nuvem, enquanto profissões tradicionais tenderão a desaparecer ou a exigir requalificação profunda. Trata-se de uma reconfiguração estrutural do mercado de trabalho global.

Peter Drucker, considerado o pai da gestão moderna, já antecipava este cenário ao afirmar que “o recurso económico básico já não é o capital, nem os recursos naturais, nem o trabalho, é o conhecimento”. A economia contemporânea é, essencialmente, uma economia do conhecimento aplicado.

Ora, se o conhecimento é o principal activo estratégico, a pergunta que se impõe é: estamos a preparar a juventude angolana para competir numa economia baseada em competências digitais avançadas?

2. Capital Humano e Competitividade Nacional

Gary Becker, Prémio Nobel da Economia e principal teórico do Capital Humano, demonstrou que o investimento em educação técnica e qualificação profissional aumenta directamente a produtividade e o crescimento económico. Países que investem de forma estratégica em competências técnicas colhem ganhos sustentáveis a longo prazo.

Angola, no entanto, ainda apresenta um modelo formativo fortemente orientado para áreas administrativas e generalistas, enquanto o mercado exige especialistas em programação, análise de dados, engenharia de sistemas, automação e cibersegurança.

Michael Porter, referência mundial em competitividade, defende que a vantagem competitiva das nações depende da sofisticação dos seus factores produtivos, especialmente da qualificação da sua força de trabalho. Sem capital humano altamente especializado, não há competitividade sustentável.

Quando empresas angolanas enfrentam dificuldades para recrutar engenheiros de software seniores, arquitectos de cloud ou especialistas em segurança digital, o problema deixa de ser apenas empresarial e passa a ser estrutural e nacional.

3. O Paradoxo da Emigração Juvenil

Muitos jovens angolanos optam pela emigração acreditando que no exterior encontrarão melhores oportunidades. Em parte, isso é verdade. Contudo, é preciso reconhecer que os países que absorvem mão-de-obra qualificada procuram profissionais altamente especializados.

Manuel Castells, na sua teoria da Sociedade em Rede, explica que a economia global opera numa lógica de redes digitais interligadas, onde o valor é gerado por quem domina fluxos de informação e tecnologia. O trabalhador que não possui competências digitais avançadas encontra-se marginalizado dessa rede global.

Assim, o desafio não é apenas criar empregos locais, mas formar jovens capazes de competir globalmente, inclusive de forma remota. A economia digital permite que um programador angolano trabalhe para empresas na Europa, Ásia ou América sem sair do país, desde que possua qualificação compatível.

4. A Urgência dos Cursos de Tecnologias de Informação

A aposta estratégica deve ser clara: massificação de cursos técnicos e profissionais em Tecnologias de Informação.

Mas não falamos apenas de licenciaturas tradicionais. Falamos de:

Certificações internacionais (AWS, Azure, Cisco, Google);

Bootcamps intensivos em programação;

Formação prática em Inteligência Artificial e Big Data;

Laboratórios tecnológicos nas universidades e institutos médios;

Parcerias entre o Estado, as universidades e o sector privado.

Clayton Christensen, teórico da inovação disruptiva, demonstrou que sistemas que não se adaptam às transformações tecnológicas tornam-se obsoletos. O sistema formativo angolano precisa de inovação disruptiva, sob pena de continuar a formar jovens para um mercado que já não existe.

A qualificação tecnológica não deve ser vista como opção, mas como política pública estratégica de soberania económica.

5. Competências Técnicas e Competências Humanas

Entretanto, não basta dominar linguagens de programação. O Fórum Econômico Mundial também destaca a importância de competências como pensamento crítico, criatividade, adaptabilidade e aprendizagem contínua.

Yuval Noah Harari alerta que, no século XXI, a habilidade mais importante será a capacidade de reinvenção constante. Num mundo onde as tecnologias evoluem rapidamente, a aprendizagem permanente torna-se requisito de sobrevivência profissional.

Portanto, a formação tecnológica deve estar aliada ao desenvolvimento de competências estratégicas e comportamentais.

6. Conclusão: Qualificação ou Dependência

Angola encontra-se numa encruzilhada histórica. Pode continuar a assistir à saída dos seus jovens em busca de oportunidades ou pode investir decisivamente na qualificação tecnológica para transformar o país num produtor de conhecimento e inovação.

A falta de oportunidades é, muitas vezes, a face visível de uma carência mais profunda: a insuficiência de qualificações adequadas à economia digital.

Investir em Tecnologias de Informação não é apenas uma estratégia de combate ao desemprego juvenil. É uma decisão de competitividade nacional, de redução da dependência externa e de afirmação de Angola no cenário global.

Como ensinou Peter Drucker, “a melhor forma de prever o futuro é criá-lo”.

A questão é simples: estamos dispostos a criar o futuro tecnológico de Angola ou continuaremos a lamentar a exclusão da nossa juventude dos grandes concursos e oportunidades?

O tempo de decidir é agora.

Crédito: Link de origem

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